sábado, 17 de janeiro de 2009

Inspiração Literária


Quando estiver entediado e desprovido de inspiração literária, assista a um filme francês que lhe dê algum entusiasmo, crie um personagem em preto e branco, dê-lhe algumas verdades perecíveis e total atenção até o dia em que se sentir suficientemente apto para escrever sobre o que quiser novamente. Isso irá lhe render contos e poemas primorosos. Em seguida, tome um belo porre, faça amor com sua esposa e dê uma big festa para comemorar a supremacia da instituição Família.
Esqueça conceitos como dignidade, coragem e responsabilidade, pois eles não fazem ninguém feliz, são absolutamente dispensáveis, além de totalmente avessos à arte de escrever.
Liberdade é a palavra certa: sinta-se livre para fazer o que quiser com quem quiser!
Por que será que as pessoas demoram tanto para descobrir que a felicidade é simples assim e que personagens em preto e branco não valem à pena?

A foto é uma cena do filme Amantes Constantes de Philippe Garrel.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Dias assim...


a solidão sempre aparece com beijos & bombons

a solidão faz visitas regulares a seus amigos íntimos

a solidão procura o inverno em pleno verão

a solidão brinca no mar com seus dedos de açúcar

a solidão vive sorrindo pra desconhecidos

a solidão ainda se emociona com filmes antigos na televisão

a solidão tem olhos escuros, a solidão tem olhos azuis

a solidão tem uma cerca branca com rosas e uma bicicleta

a solidão imagina gueixas cujos olhos são borboletas de vidro

a solidão é uma loucura e arrebata concursos de beleza

a solidão bebe em meu corpo seu próprio desespero

a solidão adora esconde-esconde e amarelinha

a solidão coleciona diários e discos do Coltrane

a solidão usa pijamas de bolinhas e óculos quebrados

a solidão depois do sexo ainda se sente sozinha

a solidão e eu somos apenas bons amigos

a solidão corta meus pulsos com uma gilete de sal

depois sai chapada pelas ruas

com uma folha de alface na lapela


(Rodrigo Garcia Lopes)


A tela é de Edward Hopper, e ilustra perfeitamente em cores e espaço, as palavras de Rodrigo Garcia Lopes.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Cem Anos de Solidão


..."porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra."


Gabriel García Márquez.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

(Re)Invenções para 2009


*me enterrar até a medula em um bom curso de inglês;
*(re)aprender a jogar truco (Jean Caio e Rodrigo estão intimados para tentar ensinar mais uma vez);
*ser Assistente Social;
*ler Crime e Castigo, do Dostoievski;
*comer menos;
*fumar menos;
*dormir mais... sempre mais;
*recorrer novamente à homeopatia se eu perceber que a TPM vai fazer alguma vítima fatal;
*morar sozinha (se as condições econômicas permitirem);
*adotar meu querido irmão Abelardo e, se possível, sua noiva Heloísa;
*fazer algum exercício físico (isso eu me lembro que prometi para 2008, mas não deu... só que foi por falta de tempo e por algumas barreiras pseudo-ideológicas);
*visitar meus pais com mais freqüência;
*viajar sozinha pra algum lugar distante;
*xingar menos (principalmente na presença de menores);
*chorar menos (principalmente se for por equívocos ou antes da hora);
*ser mais tolerante (Ai, meu Deus... como é difícil);
*ser mais otimista (que legal!);
*ser mais sociável;
*retirar esse nódulo absurdo do meu olho esquerdo;
*ser mais confiante;
*descobrir a cura do diabetes (brincadeirinha!!!).


PS: Aos familiares e amigos que lêem este humilde blog, aviso que vou apenas tentar, por isso não quero ninguém me cobrando merda nenhuma depois. Obrigada e que 2009 seja um ótimo ano para todos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

TPM


Sim, eu sofro deste mal...
Alguém me diz:


- O que você tem é falta de fé... Deveria orar a Deus e implorar pra que ele faça de você uma pessoa mais tolerante, tranqüila, otimista e livre de pensamentos psicóticos.

Tento explicar que fé eu tenho... Mas também tenho hormônios e, estes filhos da puta sim, são ateus... Substâncias sem Deus, sem fé, sem religião, sem sentimentos, desalmados e desgraçados.

Difícil explicar as peculiaridades ateísticas do meu organismo... Desisto.
Fico quieta... logo passa.


Abraço.

sábado, 13 de dezembro de 2008

DIAGNÓSTICO


Sua mãe afaga seus cabelos enquanto ela sonha um sonho ruim com uvas sem cor ao som de Carmina Burana. Estranha música para a menina ouvir num sonho...
Em pouco tempo o médico chega... Diz que a menina acordou e recebeu a notícia, chorou lágrimas da mais profunda consternação e depois voltou a dormir.
A realidade está muito escorregadia. Ela deve ser cuidadosa, evitar músicas, poemas, fotos... lembranças. Ou pode cair.
Apesar do diagnóstico devastador, sente-se segura pela presença do médico. Ele a curou da escuridão que a impedia de respirar.
E é Natal, os presentes já se anunciam! Pretende se afastar desse universo traiçoeiro por alguns dias... Talvez consiga esquecer...
Às vezes sinto muita pena dela...
A menina está tão confusa... Se ela ao menos não se cansasse tanto para tentar entender... Gostaria de poder lhe dizer que não há explicação plausível para o diabetes.
Mas a menina já não tem a companhia do Grande Gato Amarelo de palavras sábias... e seu médico desistiu de negar-lhe a doença.
Voltou a ter pesadelos e o que mais a atormenta é saber que sua doença não tem cura...
Não nos esqueçamos: é Natal... e o presente anunciado deverá ser um bom paliativo.
Alegrar-se-á com ele.
Afinal, diabetes não é uma doença tão grave... pode ser controlada.
Só é preciso acostumar-se a viver sem doces por toda sua vida.
O médico é muito atencioso com os pais aflitos:
- A menina vai sobreviver... Deixem-na falar palavrões, fará muito bem a ela. Façam-na profissionalmente promissora, isso pode distraí-la por algum tempo, mas caso ela demonstre enfado, esqueçam o Serviço Social e tentem expressar satisfação quando disser que está indo embora para a Escócia trabalhar como garçonete. Apenas se certifiquem de que fez um bom curso de inglês antes, ou a experiência será desastrosa. Nunca critiquem suas roupas e músicas anacrônicas, ela pode debilitar-se fatalmente. Dêem-lhe todos os bons livros do mundo... é a garantia de seu bem-estar. Não deixem que passe muito tempo sem ouvir Noel Rosa – o Poeta da Vila faz tudo ficar mais leve. Vai precisar de doses diárias de vaidade e, embora tenha efeitos colaterais lamentáveis, este ainda é o único medicamento contra a frustração. Vigiem cada molécula de seu corpo, elas estão frágeis como um passarinho. Deixem-na dedicar-se ao comunismo se ela quiser – não deverá fazer-lhe mal nenhum – contanto que não se transforme numa stalinista miserável ou em uma sindicalista decadente (se isso acontecer teremos que sacrificá-la). Nunca velem seu sono, se o fizerem ela sentirá e terá novos pesadelos. Não lhe ofereçam flores, a doença desencadeou uma espécie de alergia que pode ser temporária – ainda não sabemos... E não tentem privá-la da solidão, pois é essencial ao tratamento.
A mãe, com lágrimas nos olhos, pergunta:
- Ela sente dor?
O médico responde prontamente e com um sorriso de complacência:
- Sim, mas é bem menor do que parece...
O pai fala sobre o Grande Gato Amarelo e o médico lembra-se que a menina havia perguntado por ele. Mentiram-lhe a pedido do médico, que acreditou ser desnecessário dar à menina outra notícia tão desagradável... Disseram que o sábio felino se cansou da empáfia dos brasileiros, filiou-se a um partido parlamentarista australiano e foi trabalhar como atendente de farmácia numa cidadezinha ao leste da Tasmânia. Ela pareceu não dar importância... mas balbuciou algum impropério por causa da “promiscuidade política do animal”.
Assim que acordasse iria para casa.
Os pais se olham no corredor e decidem cuidar dos aspectos práticos: a mãe ficaria esperando a filha acordar enquanto o pai iria rapidamente para casa enterrar o maldito Grande Gato Amarelo, para depois correr até a livraria comprar algumas obras de literatura russa.
Olho-a pelo vidro da porta, ela ainda sonha com as uvas...
A menina vai sobreviver.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O Mundo é um Moinho


Ainda é cedo, amor

Mal começaste a conhecer a vida

Já anuncias a hora da partida

Sem saber mesmo o rumo que irás tomar


Preste atenção, querida

Embora eu saiba que estás resolvida

Em cada esquina cai um pouco a tua vida

Em pouco tempo não serás mais o que és


Ouça-me bem, amor

Preste atenção, o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos

Vai reduzir as ilusões à pó.


Preste atenção, querida

De cada amor tu herdarás só o cinismo

Quando notares estás a beira do abismo

Abismo que cavaste com teus pés.



(Cartola).



Tem dias que essa música parece um hino aqui em casa... e ouço-a na voz do Cazuza, que é pra doer um pouco mais.

A imagem é de alguém que, as vezes, ainda contesta o Cartola.



Abraço.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

E ela só queria ser uma tempestade...


... a agitação violenta da atmosfera.