domingo, 15 de fevereiro de 2009

E também pode ser assim:


Ele joga o cinzeiro contra a parede e diz que há tempos queria quebrá-lo e nunca mais sentir o maldito cheiro de fumaça dentro daquela casa.
Ela arremessa o relógio que ele ganhou de presente do irmão mais velho e grita todos os palavrões que deixam os vizinhos escandalizados.
Estão quase cometendo um assassinato.
Ele a acusa de negligência.
Ela o acusa de apatia.
Ele apenas acusa.
Ela xinga. Aos gritos.
É um deus nos acuda.
Ela diz que está levando apenas seus livros e CDs e que o que ficar pra trás ele pode enfiar num lugar que estarrece os vizinhos.
Ele odeia aqueles palavrões. Odeia.
Ela sabe disso.
Ele levanta o braço para dar-lhe uma tapa e ela oferece o rosto como se fosse para um carinho.
Os lábios dele se contraem de raiva e o estômago dela dói de amor.
É uma luta inglória.
Ele se afasta e ela o manda para o inferno.
Lá vem um novo festival de palavrões.
Ele a manda calar.
Ela obedece e acende um cigarro.
Ele apenas observa e recomeça o circo assim que ela joga as cinzas no chão.
Quem mandou você quebrar o meu cinzeiro?
Como ele pôde viver tanto tempo com alguém tão detestável?
Ele é sensato.
Ela é histérica.
Ele não vê a hora que ela vá embora para que os vizinhos possam dormir.
Ela prolonga exaustivamente aquela aflição.
Fodam-se os vizinhos. Já os viram e ouviram em situações muitos mais ultrajantes para os olhos de quem não está participando.
Ele não a ama, por isso os gritos não fazem sentido.
Ela o ama profundamente, por isso não faz sentido ir embora sem antes gritar e quebrar todos os objetos que ele preza e berrar todos os palavrões que ele odeia.
Ele quer ficar sozinho.
Ela quer que seja assim: um deus nos acuda.
Principalmente para os vizinhos.

A tela é do Munch.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Is This Love


O pequeno relógio observa tudo atentamente em cima da cômoda do quarto. Seus ponteiros cruéis acusando-os da vida que perderam. É um inquisidor, mas abrandou suas palavras diante do fim que constrange até o mais insensível dos objetos que, após testemunhar todos os erros e acertos e brigas e reconciliações, instituiu-se juiz de um tribunal sem contas.
Enquanto o casal tenta estupidamente eleger um culpado pela desventura, o relógio se distrai olhando entediado a disposição dos CDs meticulosamente separados. Do lado esquerdo os dela – ótimos. Ela tem um excelente gosto musical. Do lado direito os dele – patéticos.
Como ela suportou aquelas canções medíocres por tanto tempo?
Pois é... Is this Love.
O amor suporta até o pior dos gostos musicais.
O silêncio do samba que não está tocando incomoda o casal e o relógio grita para que acabem logo com aquela cena deprimente. Sabem que é hora de romper.
O que ela ainda está fazendo ali?
Terminando seu cigarro.
O relógio pensa que, se for pra culpar alguém, que seja ela.
Por que a moça havia de querer ser feliz? Não precisava. Numa relação daquelas a felicidade era algo absolutamente dispensável.
Malditos sambas bons... cúmplices dela neste crime de alegria.
Ela está maquiada. Ele sabe que ela não vai para casa. Vai sair. Com quem? Amigas que vão consolá-la num bom bar.
Malditas amigas. Vão convencê-la de que foi melhor assim, de que a relação já estava sendo destrutiva há tempos e vão pôr a culpa nele.
O relógio pede para ir com ela, para que possa defendê-lo das acusações injustas das amigas.
Ele não vai se consolar com ninguém. Vai ficar ali. Talvez ouvindo alguma música ruim...
Talvez chore.
O relógio poderia muito bem defendê-lo no bar, mas é incapaz de consolá-lo. Daí já é demais!
Não é possível! Será que ela acendeu outro cigarro ou ainda é o mesmo que conspira contra a libertação e insiste em não acabar nunca?
O relógio a repreende. Como ela pode fumar num momento assim?
Como pode se dar ao luxo do prazer no instante em que deve unicamente sofrer?
A culpa é dela mesmo. Egoísta.
Por isso está chorando. De remorso.
Ele não chora.
Sabe que continuará sendo a mesma pessoa que vive e sonha e dorme e acorda e trabalha e morre todos os dias. Só que agora não terá mais uma testemunha ocular que lhe sorri à tarde quando chega do trabalho e que bebe cerveja com o maior prazer do mundo e que canta alto um samba do Zé Keti pelos corredores da casa enquanto procura os óculos batucando nas portas.
Nunca mais o Noel há de cantar dentro dessa casa.
Agora pelo menos vai poder dormir melhor.
Nunca dormiu bem ao lado dela.
Agora pelo menos aquele cheiro de cigarro vai desaparecer.
Vai jogar fora o cinzeiro de vidro.
Nunca mais haverá fumaça dentro dessa casa.
Ela coloca a bolsa no ombro e o abraça chorando.
O relógio desvia o olhar, mas todos os outros objetos choram com ela.
Os únicos que permanecem inexpressivos (ele e o relógio) são os que mais a amam e têm certeza de que a culpa foi dessa necessidade incontida dela de ser feliz.
Poderiam morrer juntos se ela não tivesse esses desejos pueris.
Poderiam ter tido um filho e ele até permitiria que o menino tivesse o nome do pianista que ela gosta.
Poderiam ter composto uma música juntos.
Poderiam ter escrito um romance.
Poderiam tantas coisas – por que ela não esquecia aquela bobagem?
Ele não ouve os passos dela na escada. Talvez ela ainda esteja parada do lado de fora.
Não.
Se estivesse ele a ouviria chorar. Porque ele sabe que ela está chorando desesperadamente agora, enxugando as lágrimas com as costas da mão esquerda enquanto a direita busca a carteira de cigarros dentro da bolsa.
Deixe que chore.
A culpa foi dela mesmo.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

É assim:


Você chega cansado, mal humorado, sozinho e seu cabelo já não corresponde as suas expectativas.
Encontra algumas pessoas que te orientam sobre o que deve fazer e onde deve ir.
Fotógrafo. “Vamos fazer uma foto sua assinando”. Mas eu nem estou de beca. Tudo bem...
Em poucos minutos está dentro da beca e pergunta para vinte e oito pessoas de que lado deve ficar aquela faixa horrível da cintura. Quatorze diz que é do esquerdo e a outra metade diz que é do lado direito. Você deixa do jeito que está e finge que a faixa nem existe.
Entra naquele ginásio de esportes descomunal e segue as outras pessoas da sua turma até o lugar designado a você.
Sente-se mal por ver que todas as outras formandas estão com um belo salto até que a quinta delas olha pra você e diz com expressão de cansaço o quanto se arrependeu por não ter colocado um sapato igual ao seu.
Pode sentar ou é pra ficar em pé?
Fotógrafos. “Olha aqui pra gente fazer uma foto sua de capelo”. O que?
Todo mundo sentado. Alguém se pronuncia. Você não consegue prestar atenção nas palavras. Está procurando sua família na arquibancada. Olha para todos os lados. Não vê ninguém.
Que calor.
A orquestra toca algo. Todos ficam em pé. Acabou. Todos se sentam.
Você olha para os lados.
Alguém está falando de novo.
Lá vem o fotógrafo. Foto com o canudo. Com a sua colega. Com o capelo de novo. “Mas o capelo não pára na minha cabeça!” Deixa pra lá...
Cadê essa gente?
Isso não é uma beca, é uma mortalha.
Que sede.
Quem está falando? Sei lá.
E a orquestra de novo. Todos se levantam.
Acabou. Podem se sentar.
Suando em bicas... Pelo menos o capelo existe: para você se abanar.
Dá outra olhada. Sua família te enganou. Não vieram...
Tudo bem. Você disse que deveriam vir só se quisessem. Não quiseram.
Estão vaiando. Vaiando quem? O reitor.
E ele fala. Fala. Fala...
Juramento. Jura que vai mandar esse fotógrafo tomar naquele lugar se ele olhar pra você de novo.
“Levanta o braço, moça. Vamos fazer uma do juramento”.
Olha-o como quem vai mandá-lo tomar naquele lugar e ele te olha insolente, esperando sua pose.
Está bem. Foto do juramento.
Seu celular toca. É o número da sua mãe, mas é a irmã quem fala. Pergunta onde estão. “Atrás de você, sua burra. Olha pra cá”.
Lá estão eles. Exaustos de tanto acenar. E você sempre os procurando no lado oposto.
Sente-se feliz. E um pouco idiota também.
“A gente já colou?” “O quê?”
É a colega do lado... Quer saber se já aconteceu a parte da cerimônia que os faz efetivamente “colados”. Sei lá. Explica que estava à procura dos seus familiares.
Em pé de novo. Mandam que acenem para os familiares. Agradeçam os pais. Eles acenam de volta. Estão felizes.
Sua mãe está com um belo vestido e seu pai está profundamente mal humorado.
O calor vai te matar e sua maquiagem já te abandonou há muito tempo.
Estão vaiando novamente. Quem dessa vez? Parece que é um deputado. Ele você também vaia.
Falta pouco, agora é só o prefeito falar.
A orquestra de novo.
Mais oito mil fotos com este fotógrafo desgraçado.
Sua querida professora te entrega o certificado.
Você abraça todos os amigos.
Esperou quatro anos por este momento e agora está encolhido no fundo dessa beca maltratando os fotógrafos e acenando para sua família.
Acabou. Lá vêm eles.
Abraços e mais fotos.
Seu pai está realmente impaciente.
Eles vêm com flores...
Flores. E são pra você.
Você agradece. Sorri.
Acabou.
Vão embora.
Finalmente você vai tomar sua merecida cerveja e falar sobre a emoção deste momento.
Finalmente não há mais nada entre você e esta profissão.
É um nascimento. Você ficou tão sufocado de calor dentro daquela roupa e tão ansioso procurando sua família, que não se deu conta de que nasceu como profissional.
Percebe isso no bar. Tomando sua merecida cerveja e conversando com pessoas que você nunca havia visto até aquele dia.
Mas tudo bem. Você também não existia até aquele dia.
Não existia como profissional que agora você tem a obrigação de se tornar.
O emprego?
Ah... Isso é outra história. Afinal, você acaba de nascer. Agora, vai começar a engatinhar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Diário de campo.


Você já fez alguma coisa totalmente ridícula sem estar bêbado?
Ela já. Várias vezes.
Uma delas – acho que a pior de todas – ensaiou por muito tempo antes de tomar coragem para fazer.
Foi tempo suficiente para perceber que aquilo era um disparate.
Mas não. Quando tem que ser ridícula ela obedece cegamente todas as ordens e regras da insensatez e faz tudo dentro do maior rigor. E sempre tem um bom motivo pra isso.
Quando alguém relembra o acontecido ela faz questão de levantar o dedo indicador e dizer de forma acusadora que foi amplamente incentivada por “amigos” que adoraram a idéia de um outro “amigo” que acabou dando no que deu. Agradece sarcasticamente a corja de amigos no final das contas e ri gostoso...
Vou contar essa bela historinha que deveria levar o título: “O elogio da insensatez”.

Ela fazia estágio duas vezes por semana numa instituição filantrópica em uma cidade vizinha. (Parece que eu aprendi a escrever "vizinha")
Odiava aquele estágio.
Por vezes ia chorando dentro do ônibus. Chorava de sono e de raiva.
Estava passando por dias realmente ruins. Ainda não estava tomando os tais homeopáticos quando tudo começou.
A instituição do estágio, a supervisora e o estágio em si, provavelmente eram ótimas. Ela é que estava inventando um monte de cruzes para carregar. E aquela falta de ar... era sempre assim quando estava nervosa.
Um dia olhou pela janela num ponto em que muitos desciam para uma conexão e viu um sujeito parado.
Gostou dos olhos dele. Eram levemente caídos nos cantos externos e davam-lhe uma expressão de quem não estava nem aí para o que se passava ao seu redor.
O ônibus tocou e ela voltou a pensar que em breve estaria dentro daquela instituição sem ter a menor noção do que deveria fazer. E a falta de ar que lhe provocava aquelas dores horríveis no peito...
Passados dois dias voltou a pegar o ônibus e viu que o sujeito estava lá dentro! Ele pegava o mesmo ônibus, mas descia antes dela, para fazer a conexão.
Sempre sério. Às vezes com fones no ouvido, às vezes lendo alguma coisa... Nunca olhando para os lados. Nunca olhando para as pessoas. Muito menos para a nossa adorável estagiária.
Um dia ele desceu e ela se distraiu a olhá-lo. Penso que ele percebeu, pois a olhou de fora com expressão um pouco desconfortável.
Ela mais do que depressa desviou o olhar e procurou ser mais discreta.
Preciso deixar bem claro que aquilo nem de longe era uma paquera. Tanto que a principal preocupação dela era que ele nunca percebesse seus olhares.
Estava apenas gostando de passar aqueles minutos outrora terríveis a imaginar o que ele estaria lendo, o que ouvia e no que pensava quando olhava demoradamente pela janela fitando a estrada...
Era um homem alto e bem vestido. Sempre de movimentos polidos. Aparentemente formal.
Não era o tipo de homem que ela gostava.
Mas quando ele estava com a barba por fazer ela se demorava mais ao olhá-lo. Gostava da barba.
E assim ela foi desde abril até meados de novembro.
Todas as manhãs olhando-o...
E sempre cuidando para que ele não percebesse.
Pode ser que não tenha notado nada mesmo.
Mas, próximo ao fim de novembro (e nesta altura ela já estava obtendo grandes avanços com a homeopatia) se deu conta de que o ano estava acabando. O estágio estava acabando. As viagens pela manhã estavam acabando...
Ela não voltaria a ver aquele sujeito alto e formal e sério que sempre ouvia músicas que ela não sabia quais eram e lia coisas que ela não sabia se comoviam alguém e parava no ponto com a altivez de quem não fazia parte daquelas manhãs enfadonhas e olhava para frente como se nada daquilo existisse de verdade e tinha os cantos externos dos olhos caídos numa expressão de desdém...
Livre das faltas de ar e sentindo-se milagrosamente bem, não gostou da idéia de ter passado quase oito meses observando uma criatura e depois nunca mais vê-la.
Comentou com sua corja de amigos.
Foi um pandemônio. É claro que seus argumentos de que não era interesse não convenceram as “amigas” loucas e adoravelmente inconseqüentes que ficaram eufóricas com a história.
Comentou então com um amigo que parecia ser um pouco mais sensato, pois talvez ele entendesse seus argumentos.
O amigo fingiu que entendeu do mesmo jeito que sempre havia fingido ser um pouco mais sensato.
Pensaram juntos no que ela deveria fazer.
O problema é que a nossa adorável estagiária, além de ser uma aprendiza em muito mais do que na profissão, é tímida.
Muito tímida.
Bom dia? Nem pensar.
Sentar-se ao lado dele? Nem sob tortura física, moral e psicológica.
Fingir uma convulsão e se jogar em espasmos sobre seu colo? Hum... não não. Melhor não.
Assim fica difícil...
Passaram mais de uma noite pensando...
O tempo estava passando e, em breve, ela não o veria mais.
Até que o amigo que fingia ser sensato e fingiu entender a inocência dos motivos da menina, teve uma brilhante idéia!!
Até hoje me pergunto chocada como foi que ele conseguiu convencê-la a fazer aquilo.
Até hoje me pego pensando em quais foram os artifícios de manipulação e persuasão que aquele sujeito usou para fazê-la acreditar que aquilo não era um disparate.
A idéia brilhante: Antes do Amanhecer.
O filme, aquele dos dois jovenzinhos românticos que viajam de trem e se apaixonam e têm até o amanhecer do dia para ficarem juntos.
Superficialmente é só isso. Mas, a querida estagiária e eu sempre acreditamos que o tal filme é sobre algo muito mais encantador: as pessoas.
A idéia constituía-se em entregar o filme para o sujeito...
Assim, sem bom dia nem sentar-se ao lado dele nem convulsão.
O amigo fez a cópia do filme. O resto era com ela.
Apesar de aprendiza e tímida, ela é um pouco criativa.
Eis o grande conflito:
Entrava no ônibus pela manhã, olhava-o com o filme nas mãos. O ano e o estagio e as viagens próximos do fim...
Quanta tensão. Este é o clímax da historinha que já está ficando longa demais.
E no último dia de estágio ela rabiscou seu e-mail na contra capa e foi para sua última viagem decidida a falar com o tal sujeito sério.
Sabe-se lá Deus o que havia acontecido naquele dia, mas o fato é que não havia ninguém sentado ao lado dele, nem na frente dele, nem atrás dele...
Ela se encolheu num banco à frente. Abriu um livro. Fingiu ler, mas era incapaz. Naquele momento ela era absolutamente analfabeta.
Seu coração já havia percorrido todo seu esôfago e estava chegando feliz da vida na garganta...
Antes que o sujeito descesse do ônibus e seu coração se atirasse de sua boca, se virou e tentou um sorriso. Foi péssimo.
Falou meia-dúzia de palavras que nem eu que estava ali de forma sobrenatural e sei de todos os detalhes porque sou onipresente consegui ouvir.
Ele agradeceu pelo filme (ela não gostou da voz dele e seu sorriso pareceu corromper os traços que ela mais gostava do seu rosto porque nunca havia imaginado como seria seu rosto quando sorria). Despediu-se, desceu do ônibus e ela ficou ali... Naufragou.
Não sabe se de alegria ou de embaraço.
Penso que foi alegria, mas meus poderes sobrenaturais já não conseguiam acompanhar as sensações da querida estagiária por isso não ouso afirmar nada.
No que deu tudo isso?
Em nada.
Ah... sei que é frustrante. Mas ela é só uma aprendiza.
Chegaram a trocar alguns e-mails a partir de janeiro.
Qual não foi sua surpresa quando, no segundo dia do ano ela abriu sua caixa de mensagens e leu o e-mail educado e exageradamente formal de um sujeito de nome insólito que dizia ser o cara do ônibus.
Riu-se muito, pois havia imaginado todos os nomes do mundo para o sujeito sério, menos aquele composto arrebatador. Que lindo é seu nome... Gostaria de poder contar, mas seria expor o rapaz e meu código de ética não permite isso.
E até hoje nós não sabemos como ele se sentiu ao receber aquele filme ótimo de uma desconhecida dentro de um ônibus antes de saber que se tratava de uma humilde aprendiza da vida (mais tarde, através da meia dúzia de e-mails ele pôde notar).
Sei que eu poderia descobrir o que se passou pela cabeça do rapaz com meus poderes extraordinários, mas meu código de ética não permite que eu faça isso também.
Nem sabemos ou não nos lembramos se ele disse em algum e-mail o que achou do filme...
E os dois nunca mais se viram.
Ela sempre se lembra dele quando entra num ônibus, e às vezes até olha a sua volta esperando vê-lo com suas leituras ou fones de ouvido... Se o visse iria sorrir de verdade dessa vez, pois ficaria verdadeiramente feliz por encontrá-lo.
Deve ser uma pessoa interessante... Apesar de exageradamente formal.
Ela se envergonha do que fez e xingou durante muito tempo o tal amigo.
Mas, jamais se arrependeu a nossa querida estagiária. Afinal, estagiários existem para aprender...
Aprendeu a delícia que é sentir seu coração percorrendo todo seu esôfago. E o desespero de ter que agir antes que ele alcance a garganta e salte feliz da vida pela boca.


PS: A foto é uma cena do filme Antes do Amanhecer, que eu adoro e recomendo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Diálogo


Ele:
- você me ama?
Ela:
- não
Ele:
- o que é então?
Ela:
- sono
Ele:
- por que não tivemos um filho?
Ela:
- porque alguns dos meus órgãos são estéreis
Ele:
- você vai embora?
Ela:
- vou
Ele:
- é tarde
Ela:
- concordo
Ele:
- você vai voltar?
Ela:
- nunca
Ele:
- por quê?
Ela:
- porque meu cigarro acabou
Ele:
- você vai chorar?
Ela:
- talvez
Ele:
- é só ficar
Ela:
- preciso dormir
Ele:
- dorme aqui
Ela:
- não consigo dormir ao seu lado
Ele:
- por que?
Ela:
- porque alguns dos meus órgãos são estéreis
Ele:
- você me amava?
Ela:
- não
Ele:
- o que era então?
Ela:
- era sono
Ele:
- você chorava?
Ela:
- as vezes
Ele:
- onde eu estava?
Ela:
- se escondendo
Ele:
- por que não me chamou?
Ela:
- porque meu cigarro acabou
Ele:
- você vai voltar?
Ela:
- nunca
Ele:
- por que?
Ela:
- não consigo dormir ao seu lado.
Ele:
- vou chorar
Ela:
- vou me esconder
Ele:
- está se vingando?
Ela:
- estou aprendendo
Ele:
- vou sentir saudades
Ela:
- vou dormir.
Ele:
- vou atrás de você
Ela:
- concordo
Ele:
- é tarde?
Ela:
- não
Ele:
- você vai voltar?
Ela:
- talvez
Ele:
- por que?
Ela:
- porque alguns dos meus órgãos são estéreis
Ele:
- pare de fumar
Ela:
- por que?
Ele:
- porque o cigarro pode te matar
Ela:
- você também
Ele:
- concordo
Ela:
- você me ama?
Ele:
- não sei
Ela:
- não disse?
Ele:
- o que?
Ela:
- você também pode me matar
Ele:
- se eu disser que te amo, você fica?
Ela:
- não
Ele:
- por que?
Ela:
- porque alguns dos meus órgãos são estéreis.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Aleluia - Edu Lobo e Ruy Guerra


Barco deitado na areia não dá pra viver, não dá

Lua bonita sozinha não faz o amor, não faz

Toma decisão, aleluia!

Que um dia o céu vai mudar

Quem viveu a vida da gente tem que se arriscar

Amanhã é teu dia amanhã é teu mar, teu mar

E se o vento da terra que traz teu amor, já vem

Toma decisão, aleluia!

Lança teu saveiro no mar

Bê-á-bá de pesca é coragem, ganha o teu lugar


Mesmo com a morte esperando eu me largo pro mar, eu vou

Tudo que sei é viver e vivendo é que eu vou morrer

Toma decisão, tá na hora!

Que um dia o céu vai mudar

Quem não tem mais nada a perder só vai poder ganhar

Só vai poder ganhar

Vai poder ganhar

Poder ganhar

Ganhar

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Poeminha Feliz


Escrevi um poeminha hoje e ele é todo feliz. Sinto-me bem, por isso me permiti tal pieguice. Só não vou postar porque tenho medo da fúria dos poetas que possam identificar nele toda a minha carência de técnica e aptidão. É que esses poetas conservadores já não têm em alta conta os meus palavrões. Mas eu gosto deles, por isso não quero ofendê-los ainda mais com meu poeminha feliz. Apaixonei-me por um poeta... desses bem conservadores, de palavras eruditas e técnicas rebuscadas – mas ele me abandonou. Há quem diga que foi por causa dos meus palavrões.
Mas, não sou poeta. Apenas estou feliz e me sinto na obrigação de expressar isso aqui, pois as experiências anteriores de canais de comunicação estabelecidos pelo viés da melancolia me traumatizaram. Essas coisas não terminam bem – garanto!
O fato é que ontem à noite reli cartas antigas, analisei palavras mortas, relembrei momentos bons, chorei saudades e fiz novas promessas. Coloquei em dia todas as minhas lágrimas e dormi... Despida de qualquer vaidade ou preconceito, reconheci que amo quem eu não queria amar e aceitei que falhei quando mais acreditava acertar. Reafirmei meus antigos ideais de solidão e reavaliei escrupulosamente as manifestações desastrosas do meu ego. Estabeleci um foco.
O importante é não perder o foco!
Reconciliei-me com Deus e o mundo – menos com o PT e com o Sílvio Santos, que isso fique bem claro.
Fiz as pazes com o meu estômago e hoje estamos nos entendendo muito bem. Afinal, é ele que não me permite esquecer que eu tenho um corpo – também sou matéria! E, acima de tudo, que o corpo também precisa de alguma atenção e cuidado.
Fiz as pazes com a minha consciência e repassei em suplício todas as quatro situações que me levaram a cometer aquele mesmo erro. Lembrei-me de um amigo que me dizia que não somos iguais a Prometeu. Hoje, penso que são os erros que nos igualam a essa figura mitológica: os erros vão se unindo em correntes. Gostaria de dizer isso a ele, mas, infelizmente, já não somos amigos como outrora. Já não falamos sobre Prometeu e outros ícones de nossas “introjeções” psicoemocionais.
Também me entendi com Deus e parei para pensar que tem certas coisas que não se pede nem mesmo pra Ele. Entramos num acordo de que Ele continuará sendo infinitamente misericordioso, mas que isso não é motivo pra que eu fique abusando por aqui.
Dormi como há muitas noites não dormia e acordei muito antes de amanhecer sentindo uma dor estranha. Dor física. Mas não conseguia descobrir onde doía... Só sabia que estava doendo e doendo dormi de novo...
E eis que o dia amanheceu sem correntes.
Perdoei-me.
Rezei pelo Obama.
Sorri para o visinho.
Aceitei convites outrora inaceitáveis.
E cantei o samba dos últimos quatro meses.
Deixemos as cruzes e correntes. A solidão é possível e eu tenho as mãos livres.
Deixemos os covardes aos desígnios de Deus. Apesar de tê-los apontado como os grandes responsáveis pelos desencontros mais tristes da vida, não quero mais julgá-los e desejo que sejam felizes. Se possível, que superem a covardia e sejam abençoados com a força de Hércules para lutar pelos amores e caprichos e liberdade de expressão de que precisam.
Deixemos os erros recorrentes. Sem a ingenuidade de pensar que os inéditos não virão.
Deixemos a saudade doer escavado naquele cantinho do corpo da gente que parece ter sido criado por ela mesmo porque antes de saber o que é saudade a gente nem sabia que esse cantinho existia.
Um dia eu mato essa infeliz, ou então, ela se cansa de doer aqui e vai procurar outro alguém onde criar cantinhos para escavar a dor.
O mundo se acabando e eu aqui... me transformando na grande vítima dos infortúnios do caminho.
A humanidade se digladiando e eu fazendo da minha vida um caos maior do que a Faixa de Gaza.
A Daia dizendo “Eita porra” e eu dizendo que meu coração está estraçalhado (juro que nunca vi maior anástrofe).
A cerveja aí, geladinha... e eu tentando entender a Loucura que rege certos âmbitos da minha vida.
Os amigos afinando a voz pra cantar os melhores sambas do mundo comigo... e eu tapando os ouvidos com mãos presas por correntes de erros impublicáveis.
Fevereiro está aí.
Tem formatura!
Superei o bloqueio e marquei salão: corte ou penteado? Loja: sandália preta ou prata? Vestido: com broche e sem colar ou o inverso?
E esse decote, meu Deus?... Minha irmã se aborrece: “Deixe o decote, sua tonta!”
Maquiagem: é pra destacar os olhos? Puta merda – esse nódulo ainda está aqui. Pressiono-o com o dedo indicador e ele desliza sob a fina pele da pálpebra inferior esquerda. Sim, ele ainda está aqui.
E a Residência? Cancelaram. Ao receber a notícia fiquei chateada por trinta e dois segundos, depois comecei a rir. Deixa pra lá.
Vai rolar um som daqui uns dias, numa casa lá na Avenida... Estou aguardando ansiosamente, tovarich Ricardo (e só estou escrevendo isso aqui porque sei que tenho recebido sua ilustre visita). Estou é cobrando mesmo, pra ver se esse som rola logo porque o Joubert faz propaganda desde o ano passado.
Fevereiro será assim: cerveja gelada e boa música.
Deixemos o resto pra março, abril, maio... Pra quando eu matar a saudade ou ela se cansar de mim.
Até lá, que venham os erros inéditos. Pois os velhos eu estou estoicamente disposta a nunca mais cometer.
Abraço a todos.

PS: Para os caros leitores deste humilde blog que não me conhecem - apresento-me: essa aí da foto sou eu!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O inverso também acontece...


E essa necessidade doentia de escrever.
Há quem vá ao médico quando se sente mal. Eu preciso escrever.
Hoje me dei conta de que cometi o mesmo erro quatro vezes em menos de seis meses. Isso faz com que me sinta decadente.
Existem nações inteiras, gerações de etnias, comunidades, sociedades e povos diversos espalhados pelo mundo cometendo o mesmo erro há séculos e não se sentem assim. O conflito no Oriente Médio, o PT, os programas de auditório são provas irrefutáveis de que o ser humano se apega ao que é incontestavelmente destrutivo.
“O desespero eu aguento. O que me apavora é essa esperança”. Frase do Millor Fernandes. Ele está certo. A esperança eterniza o conflito, legitima o PT, imortaliza o Sílvio Santos, acorrenta minhas mãos e me coloca repetidas vezes diante da mesma situação. E lá vou eu de novo, de cara limpa, viver a mesma história para depois me lembrar de que havia prometido a Deus e todos os demônios que dessa vez aprendi a lição. Mentira. Sabe aquele clichê que diz que a gente aprende com os erros? Comigo não funciona. É por isso que reluto em sorrir a cada atitude louvável do Obama. A gente se enche de esperança com um democrata aparentemente sensato, mas amanhã não se sabe...
Nessa tarde chuvosa, não há o que fazer. Só esperar que a chuva passe, que a semana passe, que o mês acabe... Que o Obama decepcione...
Fevereiro tem a prova da Residência multiprofissional. Eu até estudei.
Tem a formatura. Aquele vestido detestável, salto, maquiagem, penteado... Meu Deus, onde eu estava com a cabeça quando decidi participar desse circo? Já estou traumatizada antes mesmo do fato acontecer. E também já consegui contaminar todos os meus convidados com a minha raiva contra esse evento. Todos, menos a minha irmã, que me fala todos os dias sobre a grande noite e já provou quinze mil vestidos e não consegue se decidir por nenhum. Há tempos perdi o poder de persuasão sobre ela... preciso ir embora daqui. Até parece que é ela quem vai se formar...
Antes fosse. Ela saberia o que fazer com esse diploma.
Quatro vezes em menos de seis meses.
Voltei a me entupir de literatura. Eis algo que faço de misericordioso comigo. Estou na Rússia pré-revolução bolchevique em meio àquele povo miserável e degradado. Observo alguns cortiços, presencio brigas patéticas entre moradores, me espanto com o pauperismo e penso em Lênin... Tudo isso ao som de Miles Davis.
“Alguém se lembra de quando começou a ouvir Jazz?” Fiz essa pergunta aos amigos Joubert e Ricardo (pode ser que o Manga também já estivesse lá, não me lembro) na mesa do bar. Comecei a ouvir Jazz há pouco tempo e ainda estou indignada. Um dia li que Jazz é sensual – mas não é só isso. Miles Davis é obsceno! É um atentado violento ao pudor. Sobre Coltrane eu ainda não ouso falar nada. Deixem-me ouvir mais algumas vezes, mais algumas madrugadas russas, mais alguns erros...
O problema é que as músicas sempre se atrelam ao que estou vivendo. Por isso abandonei (temporariamente, espero) o que estive ouvindo nos últimos quatro meses. Meu TCC tem a cara da Elis do Jair e do Zimbo Trio e minha dor de amor tem a cadência do samba. Decidi deixar em paz minha memória afetiva e intelectual e descobrir músicas sem passado. Não sei como nem porque caí no Miles Davis, que me afaga com seu sax sem memória.
Descobri também o Leonard Cohen, por indicação do caro amigo Joubert. Aproveito para agradecer a dica. O músico canadense tem me falado sobre verdades que eu não gostaria de ouvir no momento – mas, So Long, Marianne é linda demais para que eu consiga evitar. Ouço suas verdades inconvenientes... Ah, também tem a Melissa Etheridge – I Need To Wake Up: “Now i am throwing off the carelessness of youth/To listen to an inconvenient truth”.
Gostaria de escrever sobre meus dias lindos e otimistas. Sobre as manhãs nas quais acordo maravilhosamente feliz e meu estômago finge que ama o café e o cigarro. Sobre as conversas com pessoas que me fazem rir até perder o ar... Mas não conheço as palavras que descrevem belas manhãs.
É o meu sentimento de decadência que me faz escrever.
É o meu erro cometido quatro vezes em menos de seis meses que me leva ao reino obscuro da escrita.
É o meu pavor da esperança que me põe no limbo da pretensão literária.
É natural: não sou escritora. Nem sei escrever. Quem escreve mesmo, escreve sobre qualquer coisa, qualquer tema, todo assunto, em qualquer estado de espírito... Por isso consegue viver do que faz.
Gostaria de saber escrever igual o Fernando Sabino. Não queria a cultura dos eruditos – somente a capacidade de colher no cotidiano os sorrisos e olhares dos quais nascem bons contos. Sinto uma inveja desgraçada de quem escreve bem.
Dia desses encontrei um cantinho aprazível na blogosfera: Puro & Obsceno. Comentei com alguma ênfase a qualidade da escrita e o teor comovente dos textos. O sujeito me achou exagerada. Espero algum dia conseguir entender porque sempre me ofendo se alguém me chama de exagerada. Já deveria ter me convencido do que sou. O Jean alguma vez me taxou de xiita? Não me lembro, mas penso que sim.
Mas o tal blog é ótimo – quem conhece sabe. E quem me conhece também sabe as razões da minha comoção diante da frase: “Às vezes quero mandar o amor ir tomar naquele lugar. Você não?”
Eu mando. Sempre! Manda-se até os sentimentos mais nobres, por que não mandaria a total corrupção biopsicossocial?
Defendo a teoria de alguém que eu não conheço de que xingar é altamente terapêutico. Inversamente ao comum, xingo mais quando estou me sentindo bem. Os palavrões escorrem dos meus lábios com tamanha ingenuidade, que muitos nem se dão conta do meu vocabulário chulo. É que quando estou bem sou razoavelmente espontânea.
Tenho é fases.
Li uma entrevista com a Linda Hamilton onde ela fala sobre seu transtorno bipolar. Fiquei um pouco inquieta, mas procurei esquecer isso. Afinal, a última coisa que preciso é me convencer de que possuo um transtorno mental com um nome desses e tão sério. Na verdade, de perto ninguém é sãozinho.
Deixa pra lá. Tenho meus altos e baixos.
E o fim do expediente que não chega nunca. Parece que faz um mês que estou aqui dentro, e que está chovendo e que olho para as mesmas pessoas que me fazem as mesmas perguntas e riem das mesmas bobagens... Tem alguém aqui fazendo palavras cruzadas.
Meu telefone toca e é alguém com quem eu não quero falar e que vai me dizer as palavras que eu já conheço e não quero ouvir. Entendo você, caro Millor – essa esperança me apavora também. Por que me ligam no horário de expediente se sabem que essa é uma desculpa perfeita para eu não atender?
A esperança me põe “comovida”. Os textos do tal blog também. Assim, com aspas mesmo... pois sou exagerada.
A covardia também. Comove-me ver pessoas que sempre ostentaram posturas de coragem e glória sendo aniquiladas pela insígnia do medo. E o inverso também acontece com bastante freqüência: os mais medrosos e apavorados descobrem-se guerreiros destemidos diante de incentivos insólitos. Mas isso já é assunto para outro dia.
Fim do expediente. Acendo um cigarro e vou para casa.
A polícia está perseguindo o visinho, tem um pandemônio logo ali na esquina.
O visinho é um moleque mirrado que espancou um policial forte e treinado. O inverso também acontece...
Mas isso também é outro assunto.
Até mais.

PS: Coincidência ou não – vi hoje essa foto que acompanha o post. Considerando as devidas proporções, me lembrei do visinho.