quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

como manter a sua (in)sanidade mental - em doze passos:


- leia sempre Caio F;

- cultive sentimentos destrutivos como ciúmes e auto-piedade;

- não beba nenhum tipo de bebida alcoolica (se beber, volte pra casa de táxi e chore todas as sua mágoas para o taxista);

- tente namorar alguém que nunca atende o telefone;

- acredite que todos os participantes do Big Brother Brasil são pessoas iguais a você (têm sentimentos, são imbecis e querem ficar ricas);

- faça Residência Multiprofissional em Saúde da Família (com a equipe mais amada pelas jamantas, raios, exús, neoplasias e garçonetes malditas);

- acredite piamente: você é a Maria do Bairro;

- chore pelo menos três vezes ao dia (para isso você pode usar qualquer tipo de estimulante como propagandas de banco, filmes de amor ou até mesmo as novelas do Manoel Carlos);

- odeie seu cabelo, seu peso e seu desempenho profissional;

- deixe Deus injuriado dizendo a Ele milhões de vezes por dia uma única frase: "tô na merda";

- foda com a sua coluna lombar fazendo-a acreditar que é ela quem carrega todo o peso da sua imbecilidade; e

- aproveite muito bem as suas merecidas férias para passar trinta dias unicamente fumando, chorando e dormindo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O mesmo nome


É só esta lágrima que escorre mansa sem expressão de dor, nem músculos da face se contraindo nem nenhuma outra demonstração de sofrimento. É só a mansidão da tristeza certa, sem o desespero da dúvida, sem guerras contra o próprio estômago, sem bebedeiras nem lamúrias porque não vale mais a pena gritar nem brigar nem discutir esse assunto com as amigas pedindo conselhos ou ouvindo opiniões isentas de culpa ou emoção ou amor. É só uma ferida que dói como deve ser a dor dessas cirurgias antigas em dias de chuva.
É só o abandono que vai se fazendo íntimo e a solidão que volta a sentar ao teu lado na beira do rio enquanto você acende um cigarro e sorri comovida ao vê-la depois de tanto tempo chegar assim... meio cerimoniosa para enxugar as tuas lágrimas e dizer que está tudo bem, que tudo isso vai passar antes do que você pensa.
É só a brisa do rio que te acaricia os cabelos e te avisa que a ferida estará sempre no mesmo lugar, você só precisa se acostumar com a dor e com os dias de chuva e com as lágrimas que escorrem furtivas nessas férias em que, de repente, um outro rosto que carrega o mesmo nome te abraça sem perceber e te fala com um carinho descuidado de como pensa que você é e tenta te alcançar para saber de onde vem esta lágrima e pra onde vai este olhar que você mantém fixo no rio enquanto este outro rosto te olha sob o sol que faz a água brilhar e brilhar e brilhar até o horizonte que você não se atreve a encarar agora. Não nesses dias de férias e no meio dessas lágrimas e na presença deste rosto bonito que tenta entender a tua tristeza sem palavras, sem expressão e sem coragem.
Essa tristeza que você vai derramando devagarinho na água esverdeada do rio enquanto a solidão senta sobre as tábuas do velho trapiche entre você e este rosto bonito que carrega o mesmo nome.
E, assim, você sabe que tudo está voltando a ser o que era antes e que nada deveria ter saído do lugar.
Assim, você vai se lembrando de que sempre esteve sozinha e que há de ser assim para sempre e isso te dá um certo conforto...
E, assim, você vai se acostumando de novo com o que sempre lhe foi íntimo e chora a dor do que morre a cada porção de amor e tristeza que vai se misturando à água esverdeada que passa rente aos seus pés.
E você se reconcilia com a solidão que jura nunca mais te abandonar e sorri para o rosto estranho que te olha sem saber que, neste exato momento, você se deixou cair morta e esquecida com toda a tristeza e todo o amor no fundo do rio que brilha sob o sol e acolhe a dor de mais uma ferida velha demais que decidiu nunca deixar de sangrar.
"Você me leva pra comprar cigarro?"
"Levo sim, minha florzinha..."
E você vai, sem deixar de se despedir do rio e de você mesma e do amor que já não se vê sob a água.
E você vai, como uma "florzinha" fraca demais ao lado deste rosto que carrega impunemente o mesmo nome e te abraça como que para se certificar de que você não ficou morta e esquecida com todas as lágrimas e tristezas e amores que derramastes devagarinho junto ao rio.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Pois é...






E, mais tarde, me disseram que Oswaldo Montenegro confessou que o romance de Leo e Bia não deu em nada. Talvez a janela tivesse razão... Tentaram. Tentamos.
"Humanos que são."
"Humanos que somos."

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Enquanto isso... no quarto de algum hotel barato.


Ela: uma janela de madeira branca que se abre para que as luzes da cidade possam invadir o amor no fim da tarde.

Ele: um ventilador escandaloso que atrapalha o sono, mas ajuda bastante neste calor miserável que faz por aqui.

Os dois olham entediados para a cena que se repete. Mais um amor que se consome dentro deste pequeno quarto num hotel barato da capital. É o primeiro dia, a coisa mal começou e a mocinha já está chorando. A janela a critica, mas o ventilador sai em sua defesa dizendo que não há problema nenhum em ser sensível. Conversa longa, olhares felizes, detalhes escancarados aos olhos dos dois amantes que esperaram muito tempo por esse momento. “Tudo igual”, diz a janela, “só muda um pouco o contexto, as frases românticas, as revelações comoventes, o ritmo... No final dessa conversa os dois fazem amor e ela chora de novo, emocionada”. O ventilador a repreende: “Precisa ser tão amarga? Os dois tem futuro, parecem realmente apaixonados. Outros já estariam trepando desde o primeiro minuto. A conversa vai bem, tem entrosamento, sinceridade... ingenuidade até!”

A janela ri: “Isso não vai dar em nada. Logo a mocinha vai embora e essa história morre aqui, bem debaixo dos nossos olhos.”

Três dias vão passando. O ventilador se interessa pelos hóspedes e até se comove: “Veja como estão felizes”. E a janela até acredita que dessa vez pode ser que a história de amor vingue.

Declarações de amor, sexo, sair, mãos dadas, carinho, a dedicatória modesta no livro do Galeano e outra deliciosa em um do Gabo. Mais lágrimas... “Como chora, essa garota. Deus me livre”. Dessa vez, é o ventilador que ri e concorda.

A hora fatídica: despedida. Nem precisa dizer que a mocinha está se desfazendo em lágrimas e o mocinho parece... sei lá, talvez esteja constrangido ou confuso ou profundamente triste. Mas, o rapaz não chora. Abraça a mocinha chorona, diz palavras de conforto e chama a atenção do ventilador e da janela com a frase que marca o desfecho dessa e de todas as outras cenas que se repetem eternamente dentro dos quartos de hotéis baratos: “Em breve eu vou ao seu encontro”.

A janela olha com um sorriso irônico para o ventilador, que parte em defesa do amor mais uma vez: “E eu acredito que ele vai mesmo.”

A janela se concentra na luz deprimente que invade mais este amor que, para ela, acaba de morrer bem ali, debaixo dos seus olhos.

Pelo menos o ventilador ainda acredita e, para ele, o amor fecha a porta e vai embora de mãos dadas para sempre.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O que falta é espaço


Ela olha desconsolada para a bagunça do seu quarto. Livros, sapatos, CDs, bolsas e sentimentos inadequados espalhados pelo chão. E, no final das contas, tudo isso desaparece. Menos os sentimentos inadequados. Ela precisa arrumar um lugar onde guardar tantas coisas inúteis e os livros e CDs (que são infinitamente preciosos). Precisa descobrir um canto pra estes "estranhos objetos" (os sentimentos inadequados) porque tentou deixá-los como que por descuido num quarto de hotel barato, mas olhou pra trás no último minuto, enfiou tudo na mochila e trouxe de volta tanto peso. Tentou levá-los para terras de colonização alemã e dá-los a um capilé, mas lá a questão do espaço é ainda mais complicada porque aquela gente está cheia de amores, compromissos, responsabilidades e pessoas. Definitivamente, lá não cabe. Gostaria de doar um pouco dos livros à biblioteca municipal, mas é incapaz de fazer isso pois gosta demais deles. Precisa comprar uma cômoda e organizar tudo pra ver se encontra sua carteirinha de pós-graduanda que tem que estar em algum lugar por aqui. Se não precisasse dessa merda, provavelmente estaria em todos os lugares por onde ela passa. Gostaria de saber o que fazer com tudo isso e enterrar a má notícia natalina que acabou por se quebrar perto da cama e agora fica espalhando um pó meio deprimente por todo lado. Tem 23 anos e ainda não aprendeu a guardar nada. Tem 23 anos e ainda não aprendeu que não se deve cultivar sentimentos inadequados para os quais não existe espaço na face da terra.


Tela de Edward Hopper

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

É Natal


Eu vos agradeço por vossa mediocridade.
Sim, pobreza é um defeito genético e o-por-tu-nis-mo é uma virtude aqui... no país das maravilhas. Parabéns pelo seu esforço e pelas oportunidades que forjou neste mundo tão belo e azul.
Mas, é Natal, sejamos bons e solidários com aquele sujeitinho acomodado que pede uma moeda no sinal. Tenhamos pena das criancinhas que têm fome à noite porque seus pais não quiseram dar-lhes uma vida digna ou não puderam porque são geneticamente des-pre-vi-le-gi-a-dos. Tudo isso é mais indigesto do que esses assuntos microscópicos pra mim.
Porém, eu vos agradeço por este texto e por esta náusea que me sobe a garganta e por este gosto amargo de repulsa por todo este pensamento pequeno-burguês que, além de tudo, se legitima em Deus.
Nosso Deus todo Poderoso que tem um plano para cada um de nós, que fez o mundo assim: com alguns ricos, um montão de pobres e a classe média no meio fazendo o paraíso feder um pouco mais. Que a cerveja nunca nos falte, que a inteligência não nos abandone, que nosso status nunca caia, que nossos carros nunca sejam roubados, que as etiquetas nunca passem despercebidas, que saibamos sempre achar o caminho de volta, pra fora desse mar de exclusão e misérias que nos diverte como um espetáculo circense.
Que nosso Deus Todo Poderoso nunca nos permita errar a nossa parte do texto.
Dai-vos graças por vosso QI!
Louvai o sistema capitalista e suas toneladas de oportunidades.
Perdoai os indigentes e as crianças esfaimadas. Eles sabem o que fazem sim, mas... sejamos todos misericordiosos a semelhança de nosso Pai.
A justiça divina se faz em nossos corações para que possamos viver em harmonia neste mundo de paz e igualdade.
[Desculpem, eu sou contra a harmonia... Prefiro o conflito, o confronto, a revolução, a transformação. Se Jesus Cristo não fosse um revolucionário teria sido complicado criar toda aquela confusão que resultou na maior prova do amor de Deus pela humanidade, lembram-se? Não tem importância. Outra cerveja, por favor!]
Isso não estava no script.
Sorria e seja cordial, meu bem. É uma luta tão inglória quanto todas as outras que você travou ao longo dos seus 23 anos de vida. A única diferença é que aqui você pode se divertir e isso vai te render um texto razoável amanhã.
Eu sei que isso é terrorismo e, na verdade, meus senhores, essa idéia me agrada bastante.
Este confronto de idéias é o que mais me excita. Isso é a total ausência de harmonia e vejam o quanto é bom. Essas pausas constrangidas na sua fala representam o caos que você teme, pois te põe vulnerável e te expõe ao mundo desconhecido de pensamentos diversos, alheios, extremos, opostos, avessos.
Ah! Como somos imaturos se achamos que aquilo em que acreditamos é uma verdade absoluta, imutável, gravada em pedra feito mandamentos mortos de um deus xiita.
Que Deus horrível nós criamos para esconder nossas fraquezas... Isso sim é lamentável. Deus deve estar puto com a imagem que andamos criando Dele por aqui.
[Desculpem de novo... Sei que eu não deveria dizer que Deus está "puto". Acho que este termo não é adequado para eu me referir ao estado de espírito do Todo Poderoso].
Ah! Eu vivo fugindo do script.
Nem com toda fé do mundo eu consigo acertar a minha parte do texto!
Oh, Pai Todo Poderoso – fazei-me educada, cordial e dai-me discernimento para acertar o texto nesta peça tragicômica onde eu represento um delicado fantoche com mãos sedosas, sorrisos meigos, olhares lânguidos e pretensões terroristas.
Amém.


PS: E que a trilha sonora seja razoável.
Amém de novo.


Feliz Natal pra todo mundo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Processo inflamatório


E essa dor que não passa.
Nem meus pés eu consigo lavar.
Não acredito que sou capaz de permitir que a minha cabeça faça isso com o meu corpo.
Mente e corpo doentes e estagnados.
Andar dói. Abaixar dói, levantar, sentar, ficar em pé... Tudo e qualquer coisa faz doer.
Menos deitada fitando o teto do quarto e cantando sozinha todo o repertório da Legião Urbana enquanto a Chica arranha a porta querendo fazer um dueto.
Nada está bem. Tudo está errado.
Como é mesmo o finalzinho de Eduardo e Mônica?
O teto branquinho. O barulho do ventilador. As pernas esticadas e o corpo reto.
Assim, quase não dói.
Sede. A geladeira tão longe. E essa dor miserável voltando ao me levantar.
Mente. Corpo. Nada funciona bem.
Antes eu conseguia lavar meus pés e me lembrava da letra inteira da música.
Mais uma injeção?
Ortopedista. Neuro. Raio-X. Qualquer coisa. Eu só queria que parasse de doer.
Não é nada. Foi de lavar aqueles tapetes naquele tanque meio baixo.
Foram essas madrugadas, esses pesadelos, essa tensão. Fórum, café da manhã, almoço. Como assim, sem frutas? Comissão de alimentação. Precisa de CI para utilizar a copa do HU! É brincadeira...
Vamos rever nossos objetivos aqui.
Vamos rever tudo: projetos, prioridades, caminhos, escolhas, sentimentos, a cor do teto, dos cabelos, do lago, da vida...
Ah, Renato Russo, “há tempos são os jovens que adoecem.”
Esses nossos sorrisos enferrujados, nossas lágrimas sem brilho, nossos olhares pétreos, nosso desdém por nós mesmos.
Estamos todos fragilizados, por isso, vamos nos abraçar.
Melhor não. Preciso ficar deitada até sarar.
Cinco chamadas não atendidas.
Inútil retornar.
“Você está melhor?”
“Não. Estou péssima e não consigo nem lavar meus pés.
Estou revendo quase tudo, já que mal consigo andar.
Não se preocupe, é um mal passageiro.
Já, mãe... injeção e repouso.
Tô cantando Legião Urbana e olhando pro teto.
Posso estar enlouquecendo.
Deitada não dói.
É só um processo inflamatório.
Não nos preocupemos.
Vai passar.
Logo desinflama, mãe.”
O corpo e a mente.