domingo, 22 de março de 2015

De nascença


Claudio Pereira dos Santos permanecia ereto no rio de correnteza leve, totalmente submerso, rígido e endurecido pela morte recente. Uma comunidade de algas verde-escuras de fios longos cobria cada centímetro de seu corpo esguio. As algas dançavam na densidade da água e Claudio continuava imóvel.
Sua irmã o alertara para os perigos de suas práticas amorosas e sabia que agora ele estava morto e coberto por algas dançantes em um rio claro à 13km como se fosse a carcaça velha de um barco inútil. Janice dos Santos Gusmão preparou o almoço do marido antes das onze e meia como toda manhã, depois lavou as mãos que cheiravam a alho, colocou a mesa e saiu de casa com expressão grave.
Um ou outro vizinho tentou chamar-lhe a atenção para saber notícias do desaparecido:
 - Está no rio, seu Clóvis. Vou buscar aquele desmiolado antes que vire comida de piranha.
Encontrou-o duro feito pedra. Entrou no rio vestida e, com a mesma agilidade com que descascara o alho para o almoço de Gusmão, descascava o irmão das algas verde-escuras enquanto dizia de suas muitas tarefas diárias, dos problemas com as crianças, da doença da mãe, das cachaças do marido e...
 - e você, Claudinho, que não cria juízo!
O tom enérgico de Janice foi se perdendo na correnteza leve do rio claro, na maciez das algas lânguidas, na frescura da água viva e, minutos depois, ela arrancava as plantas aquáticas com suavidade e ternura, falando ao irmão morto sobre as molecagens das crianças e a carência triste da mãe. Sorriu ao ver a marca em riste entre as sobrancelhas grossas do defunto tomar um tímido contorno róseo. Aquela mancha vermelha de nascença desaparecia na pasmaceira do dia-a-dia, mas marcava com um rubro brutal a testa de Claudio na hora do ódio ou do amor, do choro ou do riso, do medo ou da coragem.
A marca ficava cada vez mais vermelha, anunciando que reaparecia no afogado a animação de vísceras e artérias e conexões neuroquímicas e funções gastrointestinais e fluxos linfáticos e a cor dos olhos e a boca entreaberta para constranger os pulmões alagados com o cheiro fresco do rio vivo. Vivo.
No caminho de volta, Janice aplicou-lhe todas as repreensões, culpou-o pela condição da mãe -  coitadinha, que só adoece de preocupação - deu-lhe ultimatos de se empregar na usina, encontrar uma moça boa para casar e parar de fornicar com mulher de cabra bem armado por aí.
Claudio ouvia calado, caminhando atrás da irmã, de cabeça baixa e olhos envergonhados.

Despediram-se na entrada da cidade. Claudio abraçou Janice como quem se afoga. Janice relutou, mas repetiu, por fim, o gesto infinito com o qual se unia ao irmão desde tempos imemoriais: beijou-lhe a marca viva que carregava encarnada entre as sobrancelhas grossas.

sábado, 26 de julho de 2014

O defeito da esquerda

Quem deixou a porta aberta?
Esqueceram de desligar o gás. Confirmou por engano. Assinou sem ler. Dormiu quase o tempo todo. Pensou que estivesse pronto. Perdeu o sono, o ônibus e as contas.
Dizem que ficou louco. Feito Sartre, um viajante sem bilhete. Atravessou a vida por engano e guardou tão bem os traços do destino para não perder que esqueceu onde, em qual gaveta, uma pasta qualquer cheia de outros manuais velhos e pouco instrutivos.
Saiu sem avisar, andando rápido para não flagelar a perna ruim. Tentou documentar os anos errantes com um romance nunca acabado que rabiscava no fundo de restaurantes insalubres do interior. Enviou alguns capítulos pelo correio à um escritor do sul que tentou fazer chegar-lhe a resposta conclusiva de que se tratava da pior tentativa literária dos últimos tempos, mas a carta nunca o encontrou.
Uma noite de outubro de 2008, depois de dirigir quase doze horas ininterruptas com muita carga, tive a impressão de vê-lo atravessar um cruzamento melancólico da entrada de uma cidadezinha ao norte. Entrou em uma dessas casas de luz amarela e janela de madeira, pisando o degrau com firmeza para levantar a outra perna em um movimento brusco do corpo. Parece que mancava mais.
Aquela noite não dormi, apavorado, e quis viajar mais doze horas direto para casa.
Minha mãe sempre olhava sua foto na parede da cozinha com um certo embaraço enquanto coava o café:
 - Nem a bengala ele levou...
Essa frase combinava com o cheiro nostálgico que subia do coador de pano e com o suspiro constrangido que subia da minha mãe em seu casaco de lã vermelho. Mas não combinava com um homem manco que atravessava o cruzamento melancólico de uma cidadezinha ao norte, por isso, nunca contei a ela.
No começo eu pensava em procura-lo até o fim do mundo, pegá-lo pelos cabelos e arrastá-lo de volta com toda a autoridade conferida a mim pelo papel extenuante de consolar minha mãe. Depois, resignado até certo ponto, fiquei dramático: fantasiava encontra-lo feliz e gordo, bem vestido e amado e, num ato de derrota e abandono, apenas entregar-lhe a maldita bengala.
Mas, desde que comecei a trabalhar com o caminhão, já não o procurava, embora pensasse sempre que iria encontra-lo casualmente rabiscando seu romance ruim em um desses restaurantes onde as vezes faço algo parecido com uma refeição.
Em janeiro do ano passado, encostei em uma lanchonete modorrenta da insólita cidade de Monjolos, no interior de Minas, com um calor dos infernos a torturar a todos, amaldiçoando o sol e a ausência total de uma brisa que fosse. Então, senti o minuano da serra invadir meu estômago embrulhado quando vi um homem de costas cuja altura oscilava ao andar, diminuindo ao pisar com a esquerda, com um início de calvície discreta, entrando no banheiro de divisória precária aos cinco metros de mim. Eu poderia entrar no banheiro, arrebentar portas e descobri-lo esvaziando as tripas em um vaso imundo. Poderia espera-lo em frente a pia antiga de ferro e cumprimenta-lo com a naturalidade de quem reencontra um companheiro de estrada. Poderia ficar sentado na cadeira de lata com meu prato de arroz, feijão e bife de porco para vê-lo sair mancando e segurar o canto da divisória assustado ao parar repentinamente por me ver e falsear o passo com a esquerda.
Mas o calor de Minas, o frio do estômago, aquela divisória, as horas no caminhão e o cheiro de cebola frita não me permitiram nada. Os sons foram ficando muito distantes, as mãos dormentes, os olhos pesados e a lanchonete inteira foi se liquefazendo em volta do meu desespero. Olhei até o último segundo para aquela divisória antes de desmaiar sobre a mesa de lata e ser socorrido por companheiros de estrada que riam de minha palidez e faziam piada sobre o poder mórbido da refeição servida.
Nunca vi quem saiu de traz daquela divisória em Monjolos. Vasculhei-o e as proximidades, perguntei aos quatro cantos, percorri ruas em total descontrole seguido por companheiros preocupados que afirmavam que eu havia enlouquecido igual ao meu irmão.
Voltei para estrada e depois para casa. Rodando os óculos na mesa enquanto minha mãe coava o café, acompanhei seus olhos para a foto e, pela primeira vez em muitos anos, sua lamentação não morreu em um suspiro:
 - Nem a bengala... Ele nunca ficava sem ela. Era o que diferenciava vocês dois... Ninguém saberia dizer quem era um e quem era outro se não fosse o defeito da esquerda.
Duas semanas depois, ligaram de um centro de atendimento qualquer de algum lugar de Minas Gerais.
Morreu sem perceber.
Providenciei tudo para o transporte do corpo enquanto minha mãe chorava agarrada a maldita bengala.
No velório, era eu quem coava o café com uma ou outra tia sádica que comentava a semelhança do morto comigo no caixão.

 - Vocês eram iguaizinhos. Não fosse o defeito da esquerda...

terça-feira, 22 de abril de 2014

Subsolo

Depois de passar uma quinta-feira santa em trânsito, presa em aeroportos e engarrafamentos de dois estados, cheguei exausta e apreensiva à um refúgio localizado a 13km depois do fim do mundo. Em mim só havia cansaço e uma felicidade triste ao ver a cama de madeira com lençóis limpos e toalhas macias. Sem sinal de celular nem internet, até havia uma televisão, mas preferi o sono como promessa de recuperação para o dia seguinte.
A sexta-feira santa começou ensolarada e firme. Trilhas, guia, geologia, cheiro de mato, expectativas e uma fenda despretensiosa pela qual me espremi e mergulhei com meu humilde capacete luminoso.
No início tudo se sintetizava em umidade e escuridão. Havia uma certa ansiedade em movimentar a cabeça para todos os lados para que a lanterninha sobre minha testa pudesse me apresentar aos locais mais seguros para colocar os pés, não bater a cabeça, encolher os ombros, me curvar e me curvar mais um pouco até me sentar e esticar as pernas e me arrastar com o nariz muito próximo de uma superfície úmida e assustadoramente dura.
Visualmente, tudo ficou muito restrito. Eu estava dentro de um túnel de pedra onde não cabia muita coisa além do meu corpo desajeitado e contraído. Por algum motivo instintivo, procurei me concentrar nos sons, que se resumiam a minha respiração, aos corpos que se arrastavam a minha frente e a água em grande quantidade fazendo o trabalho milenar de continuar escavando a pedra em gotas ou como um turbilhão.
Foi neste momento que parei para respirar e sentir. Vi fumaça saindo da minha pele, senti as gotas que molhavam tudo em mim, senti a frieza da pedra que me envolvia em um abraço aterrador e a sensação física de que eu estava órfã. Havia uma presença incrível de morte na escuridão e no gotejar. Na superfície as pessoas deviam estar ouvindo música, dirigindo, brigando, comendo, andando, existindo... Ali, imobilizada por um chão que me encobria, a existência se restringia a respirar, ouvir e tentar enxergar um inseto pequeno e parecido com uma aranha que se escondia da minha luzinha imbecil. Na superfície, o parente de aranha poderia não ser companhia agradável, mas embaixo da terra eu o elegi como cúmplice e anfitrião. Habitante exclusivo daquela dimensão paralela, ele parecia apenas se exibir para os visitantes como exemplo de vida subterrânea.
Ao me arrastar mais alguns centímetros senti que a terra abandonava minhas pernas. Meus pés, suspensos, ainda não podiam encontrar onde o chão se escondia, mas minhas pernas já sentiam algo como ar se movimentando com euforia. Mais um pouco, e alcancei a galeria pequena e parcialmente submersa que ampliava o alvoroço da água descendo em fúria. Espuma branca escandalosa que subjugava a rocha para se transformar logo à frente em uma piscininha calma que escoava por aqui e por ali, pingando, esculpindo, acarinhando e rindo dos meus olhos arregalados de susto e encantamento.
Lá em cima as pessoas continuavam vivendo, alheias ao inseto amigo, à força da água, à escuridão do mundo e à minha orfandade. Na superfície as pessoas existiam alheias à morte que nos acompanha no gotejar subterrâneo.
Ao emergir, o sol agrediu meus olhos e o vento recebeu meus cabelos com um afago. Todo meu corpo doía, mas havia algo de abandono que doía um pouco mais.

Na noite fresca dessa sexta-feira santa, enquanto eu esticava os músculos doloridos das pernas, o Jornal Nacional (estúpido e atrasado) noticiou: Gabriel García Márquez morrera no dia anterior enquanto eu me irritava com aeroportos e engarrafamentos. Horas antes, o subsolo, com um abraço afetuoso e condolente, já havia comunicado minha orfandade.     

sábado, 29 de março de 2014

Fábula francesa

Naquela tarde quente em que se encontraram com tanta solenidade, o mundo se transformara todo em músicas de notas simples. Descobriram que todos os afetos podiam ser afáveis e emitiram um pedido de desculpas constrangido a si mesmos pelas agressões veladas que aceitaram em esforços passados de serem politicamente corretos, graves demais ou semelhantes a alguns exemplares afetados da humanidade.
Definiram os termos da mais completa simplicidade de suas relações e elegeram o carinho gratuito como única forma aceitável de tratamento entre pessoas que se abraçam (mesmo que eventualmente).
Discutiram longamente a base desse não-contrato entre seres imaginários que desvendaram um jeito real de existirem em um mundo cão.
- Seremos afetuosos, cultos e distraídos.
Como seres naturais, estavam dispostos a não compreenderem a complexidade dos impulsos de afastamento, hostilidade ou resistência, salvo em exceções bem delimitadas de opressão, mediocridade ou grandes oscilações hormonais. De resto, seriam leves como os movimentos de mãos que regem uma orquestra urbana de poesia e sexo.        
As diretrizes desse programa perturbador foram cantadas em ritmo de valsinha com um leve sotaque francês por três vozes suaves acompanhadas por instrumentos clássicos incontestáveis:
 - Um convite feito com um fio de voz.
 - Um pedido objetivo.
 - Uma porta entreaberta.
Não havia impedimentos, orientações ou processos dolorosos de descoberta ou crescimento. Seriam para sempre pequenos, hedonistas e plenos de amor...
 - ... e sexo.

Estava instituído o estado permanente de empatia e encantamento entre seres imaginários que se encontram em um domingo a tarde deste mundo cão.


Para K. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Das não-personas

Rabiscou uma guria magrela no  verso e a viu pedindo desculpas a si mesma. Quem seria essa pobre criatura que o incomodava a esta hora da madrugada? Qual seria seu conflito moral? Que roupas usaria? Que filmes gostaria de ver?
Ninguém viria à sua casa a esta hora. É óbvio que estava se escondendo...
Mas também não fazia muito sentido se esconder onde se cria. No papel, a gente vira gente.
Talvez tenha se perdido. Acabou caindo na folha em branco de um maluco insone, acendeu um cigarro, tomou um pouco do café e ficou se desculpando com frases pela metade até pedir sem jeito:
 - Deixe-me ficar.
Ficou. Ficou, antes de saber se ele deixava. Dobrou os joelhos e apoiou o queixo parecendo um pouco aliviada, mas ainda triste.
O dono do papel queria seu nome, seu conflito moral e duas ou três preferências.
 - Do resto eu dou conta.
O problema é que ela não tinha nome, nem moral nem conflito. Tampouco saberia dizer de algo que lhe agradasse.
 - Dá pra criar seu resto com isso?
O escriba coçou a cabeça... A garota era encrenca e não daria nem um conto. Ajeitou-se na cadeira, recolheu uns papéis da escrivaninha como quem está organizando o ambiente, imbuiu-se de uma expressão sábia e compreensiva e começou uma conversa muito sutil.
Ela riu sem alarde:
 - Por que você está agindo igual terapeuta?
Sentiu-se um imbecil, mas em seguida se deu conta da pequena vitória: já sabia que sua personagem não era burra nem dada à relações medíocres.
 - Por exclusão, talvez dê certo. Vamos descobrir quem você não é.
Ela coçou a cabeça... O escritor era encrenca e não daria pouso de graça. Derrubou a cabeça sobre os joelhos e fechou os olhos.
 - Deixe-me pensar...
Ele tentou oferecer uma poltrona de design pós-moderno e cores ousadas para que se sentisse confortável -  ela rejeitou como se fosse uma cadeira elétrica. Ele recuou para um aconchegante divã neoclássico de tendências sóbrias e tons pastéis, mas ela suspirou com tanto enfado que o convenceu a ceder-lhe simplesmente a única cadeira que ainda existia na cozinha.
Ela se sentou inexpressiva, com as pernas cruzadas sobre o assento gasto e a mão segurando o queixo enquanto ele esperava.
 - Onde você vive?
 - Não me lembro.
 - Você sofreu um acidente?
 - Muitos.
 - Do que você está se escondendo?
 - Dos traços de personalidade que se manifestam como uma resistência difusa em satisfazer expectativas de relações interpessoais ou envolvendo a execução de tarefas, caracterizados por atitudes negativas indiretas e oposição velada.
 - Todos estamos, querida...
Ela deu de ombros, ele deu um trago e tentou de outra maneira:
 - Você tem 26 anos, não estuda, é pobre, trabalha em um restaurante no centro velho da cidade. As vezes vai trabalhar de bicicleta, mas nunca foi assaltada...

Mora sozinha com um cachorro chamado Jairo em uma casa pequena e sem cor. Alimenta-se mal, transa com frequência e acabou de descobrir que está grávida de um sujeito meio calvo chamado Jairo que conheceu mês passado no ponto de ônibus. Não gostou dele, mas resolveu convidá-lo para um café porque seu cachorro ia gostar de conhece-lo.

 - Enfim, a perspectiva era literária e você transou com o sujeito enquanto o Jairo comia o resto da esfiha fria que ninguém quis.
Ela suspirou de novo, mas em seguida mudou a expressão para não ofendê-lo.
 - Eu poderia apenas ficar?
 - Não. Você precisa existir.
 - Tenho 26 anos, não estudo, não tenho grana, trabalho em uma lanchonete na parte caída da cidade, para onde as vezes vou de bicicleta para economizar... 

Divido aluguel de uma casa pequena e sem cor com um frentista chamado Clóvis. Ele fuma maconha e come várias mulheres. Coloco fones de ouvido todas as noites para não ouvi-las gemer...

 - Desculpe, não pretendo escrever sobre um “Clóvis, o viril”.
 - Merda.
 - A senhorita...?
 - No mês passado fui estuprada quando voltava para casa de bicicleta e talvez esteja grávida, ou com HIV, ou as duas coisas.
 - Trágico demais, não?
 - É.
 - E o Clóvis?
 - Viril.
 - E agora?
 - O que?
 - O que você vai fazer?
 - Sei lá. Você disse que o resto era contigo.
Ficaram em silêncio por algum tempo. Ele nunca seria um bom escritor e ela definitivamente não nascera pra grande personagem.
Ela fumou e ele tentou escrever até as cinco da manhã. Depois dormiram, depois voltaram, depois viram um filme do Bergman e comeram comida chinesa. Saíram para beber em um bar do outro lado da rua. Ele a fez usar uma camiseta branca ridícula e lavar os cabelos. Imbuiu-se do mais pleno comportamento de resistência difusa em satisfazer expectativas de relações interpessoais que um mau escritor é capaz.
 - Você é a única mulher que não me rende sexo nem literatura.
Adormeceu sem perceber, amanheceu sem vontade e passou o dia a procura-la em seus rabiscos deprimentes de não-inspiração ou em seus parágrafos tristes de escritor medíocre.
Dizem que, 10 anos depois, foi encontrado morto nos fundos de um restaurante da parte velha do centro, abraçado ao manuscrito de um dos maiores romances da literatura contemporânea, sua única e inestimável obra: Passive-aggressive – onde contou com maestria a belíssima história de uma jovem de 26 anos que descobriu a maneira exata de não ser.




Desenho: Marcos Yuji 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um começo que não veio*

Antes era a inércia. Depois ficamos mais fortes, fugimos, voltamos e optamos pelas relações interpessoais saudáveis. Teve terapia, bom senso, atividade física, amizade verdadeira, comedimento, respeito e solidariedade. A estabilidade nem era tão ruim assim. A sanidade mental se transformou em um reino confortável e simpático onde confraternizávamos com um estilo sofisticado de abraços plenos de sensibilidade que parecia amor. Acordamos transformados em seres tranquilos que viajam juntos, se alimentam bem e bebem com moderação enquanto conversam amenidades. Rondava-nos um abismo volátil que se liquefazia em copos quase limpos. As vezes ficava um pouco escuro e essa quase-escuridão era boa. A nostalgia, as angústias, os medos e nosso existencialismo afetado nos cumprimentavam tímidos, pedindo espaço na mesa, mais um copo, por favor... Perdíamo-nos – apenas temporariamente – depois tomávamos um banho, ouvíamos músicas sutis, peças de teatro, a arte nos salvará de todo mal, amém, outro corte de cabelo e o bom comportamento se reestabelecia com louvor. Nosso assunto era trabalho, teorias, ideologias, atualidades e bons roteiros turísticos. O bar fechava as portas para nós e íamos embora com a frágil sensação de que o equilíbrio era a receita para uma boa noite de sono. Resguardados que estávamos por um universo cuidadoso, vivíamos a leveza da semiconsciência impune enquanto nada – absolutamente nada – acontecia. Mas a vida não permanece linear nem no mais perfeito ecossistema. Não que fosse tédio, mas nós sempre soubemos que em algum momento mandaríamos tudo isso à merda. Pedimos outra saideira, mudamos o rumo da prosa, choramos e nos armamos de coragem. Que perigo... Não temos certeza, mas parece que alguém tentou avisar “cuidado, coragem não presta”. O discurso era ruim e a cerveja era gelada. A realidade foi ficando escorregadia, a cadência de nossos passos instituiu um destino aparentemente certo e o caos usou a iluminação exata para se instalar numa varanda ansiosa deste verão apocalíptico. Decretamos oficialmente o fim do mundo. Decretamos insistentemente durante uma noite inteira a morte da poesia e a instituição imediata de nós mesmos como entidades soberanas do amor. Dois dias depois, a destruição era aterrorizante. Balde, água, escova, vassoura, pano de chão, desinfetante, tirar as cortinas, lavar as almofadas, esfregar as paredes, o chão, as cadeiras, trocar a lâmpada e o resto vai pro lixo. Limpamos a cena do crime. Acordamos transformados em seres imaculados pela manhã.

*Tristeza não – Metá metá



Imagem: Obra de Salvador Dalí inspirada na Divina Comédia de Dante Alighieri

domingo, 9 de setembro de 2012

Espaço público


Eles sabiam exatamente onde queriam chegar até o momento em que se viram absolutamente fatigados em uma cidade barulhenta do sul ou do leste ou totalmente perdida no fundo do medo de cada um. Nunca mais voltaram. Dormiram o sono alheio de cimento e lua, comeram os restos do banquete real com as bocas cheias de espuma da loucura inventada por outros escribas, de outras linhagens, mortos de outras fomes e duas ou três satisfações de guerras antigas. E anoiteceram e amanheceram procurando mais uma lua e mais um sol, e choveram cansaços, mijaram mentiras, mastigaram nostalgias e cozinharam um esquecimento salgado de lágrimas sórdidas, feijão com arroz, cachaça e adeus – nunca mais voltaremos porque somos fortes. Verdadeiramente fortes. Guerreiros sagrados do amanhã. Ouviram causos e cantigas de roda picados pelo encantamento da morte e sorrisos e estrelas coloridas. Acordaram sem cabeça, condenados a um mundo para sempre sem silêncio como castigo por terem engolido aqueles comprimidinhos em uma festa tão estranha; porra, me deixa dormir; cefaléia, estado febril e trouxeram a paz de volta debaixo de pancadas os gloriosos guerreiros sagrados do porvir com suas olheiras profundas e seus maus-humores de uma sede milenar. Viram os homenzinhos que não nasceram de suas mães mas que brotaram das profundezas da terra criarem um mundo de histórias inventadas no alto da montanha mais alta em madrugadas de violão e abraços e romantismos anacrônicos isentos de sobriedade e de onde você veio, meu bem; do sul; das profundezas do chão eu vim, sabia; do fundo da terra, brotamos e viramos essas luzinhas que tu estás vendo lá embaixo; morrendo no meio do caminho; aos pedaços – que coisa horrível, meu bem... mas, de onde você veio mesmo? Não importa! Importa é para onde vamos; para onde olhamos; olha! um fantasma sentado no capô do carro; quer maconha; quer ver as luzinhas lá embaixo e levantar as saias das moçoilas distraídas. Não tememos nada porque somos corajosos. Verdadeiramente corajosos. Guerreiros sagrados de merdinha nenhuma. Abraçaram-se e choraram um chorinho coletivo de frio e saudades; do nunca mais voltaremos porque não sabemos como voltar; fugindo dos fantasmas maconheiros que passeiam pela montanha mais alta resmungando que parem-com-essa-porra-de-violão-que-isso-já-me-encheu! E se encheram de luz e de fumaça e de música e se fizeram felizes e se amaram e contaram um ao outro histórias infames que todos já conheciam apenas pelo prazer de ouvi-las das bocas uns dos outros; lamentando versos pela metade porque ninguém lembra a letra da música e ninguém sabe onde o sol nasce e se deram as mãos e voaram mandando à merda o fantasma de suas solidões cem vezes alardeadas na praça central. Guerreiros profanos de uma madrugada qualquer.


Tela de Jacek Yerka

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Para a criatura mais punk do mundo


Querida amiga,

Resolvi te escrever uma carta, pois estive pensando na nossa última conversa e fiquei muito preocupada.
Mentira.
Resolvi escrever porque eu quis mesmo.
E já sei das suas críticas para a minha entrada:
 - "Querida amiga"... Que porra é essa?
Tudo bem. Vamos de novo:

Prezada,

Não.

Salve,

Brincadeira. Não é um manifesto político, juro.

Criatura,

A carta é porque me espanta essa sua fuga desesperada. Não importa em que direção, mas os últimos acontecimentos que você me relatou deixam claro que você está tentando fugir do limbo.
Começou com essa sua obsessão súbita por crucifixos.
(obsessão-sim-senhora!)
No início lá, pendurado em um batente qualquer. Depois assustadoramente mais próximo, balançando, penetrando seu cotidiano... (Ok. Isso foi baixo).
E eu te pergunto: Tentativas inconscientes de espiritualização?
Pois é, não deu certo...
(Ainda)
E você, ao invés de voltar para o ponto certo, descambou em uma descida alucinada e ultrapassou todos os limites da decadência.
Se estivéssemos no bar agora, eu certamente trocaria o cigarro de mão, seguraria seu braço e pediria em tom dramático:
 - Não nos abandone! Fique conosco... Não vá em direção à luz, nem à escuridão.
Aqui temos aquela luz amarelada, poética e sutil.
Aqui nos lamentamos e nossa lamentação é uma arte.
Arte impossível sem álcool...
Essa arte que cultivamos com tanto cuidado e disciplina para não escorregar nas esquinas da futilidade. Nunca lamentamos a falta de dinheiro ou de auto-estima (isso é fútil) - lamentamos a hostilidade do cotidiano de pedra, sem poesia, amargo, cheio de pessoas insensíveis à causa... Que causa? A nossa, oras... O limbo. Nossa melancolia sarcástica e sabedoria indigesta ameaçadas pela felicidade gratuita.
 - Fique com Deus.
 - Obrigada.
Respostas possíveis, baby.
Não desista. Não se abstenha. Você é uma inspiração para mim!
Não faça pilates nem terapia. Mas também não abandone os bares insalubres e os escritores malditos para ficar sem banho na frente da TV. Não leia Augusto Cury, mas também não apele para Virginia Woolf, please...
Enfim, em breve estarei aí para me desfazer em drama mexicano para que você volte para o nosso submundo de ressaca e afetação intelectual. E se isso não der certo te dou uns tapas porque já perdi a paciência contigo.

Com amor,

Ana.


PS: Amém. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

(im)purezas literárias


Sobre esta nossa vida feita de não-clássicos, onde nunca seremos eruditos.
"Pós-modernos-neo-contemporâneos". Fissurados em uma prosa qualquer, sem Joyce nem Shakespeare, a ralé intelec... atualmente ébria - maconheiros do amanhã, incapazes de dizer o que lá. Lá lá lá.
Onde seremos poesia? Quando se respira esta noite? Quanto vinho será necessário para nos tornar menos tímidos ou menos hostis?
Dorme no escândalo da música underground, no embalo do sexo puto, nas palavrinhas deliciosamente obscenas escorrendo pelos lençóis.
Outro drink e outra referência literária - respiremos aliviados: todos conhecem. Não sabemos o que fazer com as duas estrelas e a arbitrariedade invade nosso mundo azul: Nada de literatura por aqui! Fica proibido narrar ou poetizar - já que a rimar ninguém se atreve... Nada de novo. Seremos a poeira do que já criaram e do que já sabemos.
Belos e suavemente mortos neste canto de bar sem luz de velas para nos guiar no além-mundo. Um toque na coxa... é vida. Tesão. Tesão é vida? De certo... E o amor?
Concentre-se! Alguém importante está falando.
 - Importante para quem?
 - Mais importante do que você, certamente.
 - Sorry. Posso escrever agora?
E escrevo outro capítulo na cama, lambuzando os lençóis de palavrinhas obscenas e a sede de três garrafas.
E escrevo sob a pele com toques inventados para uma literatura qualquer.
Eruditos na arte de arrancar do outro um gozo trêmulo. Com mãos, pés, boca e sexo. Nada mais. Apenas os verbos preguiçosos de pouco mais de trinta dias. Saudações, ilustre insegurança!
E escrevo as três da manhã - exausta, (im)pura, puta, insone e impune mais um não-clássico de nossas inspirações grandiosas.
E escrevo a náusea de mais um elogio de idioma inventado - a vontade viciosa de colocar fim a essas pretensões de páginas azuis.
E o amor?
Juro que é amor. Juramos! Juremos. É azul. É bom é pleno e é genuíno.
Não nasceu erudito nem aprendeu os clássicos. Nem qualidade literária tem, pobrezinho! É vagabundo, erótico e egoísta. Não dorme na mesma cama... incomoda. Não conjuga os verbos corretos - geme desafinado. Busca e morde e grita enlouquecendo os vizinhos. Ah! Amor grande e louco.
Mas, acredite, meu bem: só pode ser amor... tanta insanidade literária.


Imagem: Francine Van Hove - La Liseuse 1996

sábado, 3 de março de 2012

... demasiado humano


O cachorro é feio e simpático igual ao dono. Chama-se Zé – o cachorro. Passeia satisfeito entre ébrios de respeito. Abaixa a cabeça me oferecendo o dorso para um carinho quando o cumprimento: “Oi Zé, bonitão!” E ele está feliz da vida pelo banho recém-tomado.

Logo ali, ao lado, está a figura aposentada que passa os dias à espera de alguém que lhe peça uma informação, um favor ou uma lembrança. Ficam em pé, encostados no meu portão, copos e garrafas sobre o muro em uma eterna confraternização improvisada que já se organiza em Associação: a eleição do presidente é barulhenta no sábado à tarde em meio à fumaça do categórico churrasquinho de meio-fio e a balbúrdia dos associados plenos de uma insólita embriaguez democrática.

A mulher de meia idade, cabelos tingidos de um loiro-pastel-desbotado, batom vermelho manchando o dente e esmaltes de três semanas completa o cenário do bom e velho “boteco copo-sujo”. Ela se senta em uma mesa central em companhia anônima, onde pode ver e, principalmente, ser vista por todos. É a rainha da noite que chega com mais alguns, cortejada pelos mais inspirados que lhe declaram amor eterno respeitosamente em pé e sem se apoiar em nada – o que, a esta altura, já é um grande feito. E ela se desfaz em sorrisos de manchas rubras, majestosa em seu batom implacável, e responde com cadência e irreverência sem maltratar o pretendente nem se render aos seus encantos.

Eis que tal atmosfera literária contamina toda a rua: o padeiro com seus cabelos de moleque; o verdureiro de mãos firmes; o japonês da floricultura que observa tudo com espanto e reprovação e cada espírito humano que já esteve enterrado em paragens mais sombrias se regozija com a felicidade vulgar do bairro popular.

Olhares distantes tentam me convencer de que no bar não tem poesia. Que os dentes manchados de decadência são feios e nojentos; que a enorme barriga do dono do Zé é patética e imbecil; que uma Associação dos “Amigos do Bill” é um insulto aos moldes sérios dos canais democráticos de participação popular; que o pequeno Zé está infestado de perigosas pulgas e carrapatos e que o homem aposentado está em um quadro avançado de depressão.

Quem vê de longe não vê tudo... A poesia se esconde desses olhares acostumados ao desfile perfeito de manequins de carne-osso-e-chatice das paragens sintéticas da classe média.

No bar, a poesia inflama as mais sérias discussões políticas, os rumos do país, o abraço irmão, a queda de um ou outro regime, a dor de amor, a morte, as divergências aumentam o volume das vozes e Deus entra na peleja “protegendo-e-guiando-todos-nós-amém”. Filósofos elaboram refinadas críticas à globalização, as redes sociais e ao baixo nível dos chats de bate papo. Um homem conta comovido sua última visita ao urologista e o grupo se compadece – segundos de silêncio. E, de repente, todos os olhares voltam a brilhar num espetáculo coletivo de torpor e encantamento quando a vizinha passa. A alegria reina, todos os copos se enchem e no mundo já não existe urologistas.

A poesia se embriaga, faz um gesto obsceno e tira a decadência pra dançar.

Que belos contos contaria o Zé se pudesse.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Entre morangos e ressaca


E ele fala que não pode. Sabe que não deve, mas me dá as mãos, o coração e todo o resto. E eu não sei o que fazer com um homem assim, inteiro. Agradeço e nego. Choro baixinho para que não saiba que preciso de um abraço. Recuso discretamente o vinho para que não perceba que estou mais triste do que o álcool poderia suportar. E já não sei se sou forte desse jeito ou se essa é a mulher que inventei pra ele. E volto dizendo que está tudo bem e espero e danço e bebo e amanheço olhando o fundo do copo com um sorriso etílico nos olhos cansados de saudades. E ele atravessa a passarela com uma mochila nas costas e me abraça e me amarra e me bebe. Adormeço sem saber onde me perdi – plenamente inconsciente do resto do mundo que nos separa para sempre até de manhã. E sonho sonhos onde o planeta gira na direção contrária, inverte o tempo, confunde as cores, os sabores e ele não vai embora. E me ofereço no café da manhã, entre morangos e ressaca. Ele me ensina um novo dia. Ele me mostra dias velhos. Ele me fotografa e me contrata. E me solta as mãos para que eu durma. E me embala o sono com verbos inventados depois vai embora no meio da noite. Ainda chove. O chão se desfaz sob meus pés e o céu escorre pelo meu corpo. Volto a dormir.


"Nothing is real,

And nothing to get hung about.

Strawberry Fields forever"

(Strawberry Fields Forever – The Beatles)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O dizimista


Escorreu tranqüilo pelo asfalto – altivo e seguro de sua singularidade e importância, do impacto de sua cor e do desconforto que causava. Seguiu desviando insolente das ranhuras e irregularidades da rua íngreme.

O primeiro carro parou. O motorista de meia idade, funcionário público, casado, pai de dois e discretamente calvo, entre encantado e aterrorizado, seguiu com os olhos, mas não teve coragem de seguir com os pneus. Atrás, a fila de carros crescendo na rua estreita, alguns até buzinando impacientes, alheios ao espetáculo que dançava rua abaixo um pouco à frente, se exibindo em curvas cuidadosamente elaboradas para o desenho infame que seduzia os curiosos.

Na porta da loja de eletrodomésticos, a vendedora loira e ligeiramente acima do peso também observava com singular afetação o mórbido passeio que seguia com requinte e precisão, como se soubesse exatamente onde deveria ir.

Uma criança de olhos grandes e cabelos desgrenhados aproveitou o estado de total paralisia da mãe e se soltou para segui-lo, mas foi imediatamente repreendido por estranhos mais hipócritas que bradavam ser tal ato uma extrema falta de respeito, embora a criança soubesse que, na verdade, todos estavam mortificados de medo por não saber onde aquilo iria parar.

Durante os longos e angustiantes minutos em que insistiu em sua descida obstinada, o silêncio interrompeu o pandemônio de indignação e horror produzindo um cenário de encantamento que comoveu todos os presentes. Alguns metros à frente, morreu na curva sem avisar ninguém.

O motorista de meia idade, entre frustrado e aliviado, cruzou seu rastro maculando os pneus e foi imitado pelo cortejo de carros que passava lentamente para que os motoristas fossem transformados em testemunhas oculares do fato que contariam nas proximidades da garrafa de café do escritório.

No alto da rua, o morto parecia olhar o desenho que nascia de um triste buraco em sua cabeça. Lá embaixo, na curva, morreu o último fio de vida do pobre morto que iria depositar – religiosamente – o dinheiro da Igreja, mas teve sua cabeça estourada pela bala do revólver de um motoqueiro qualquer que recolheu os dízimos da semana toda as dez da manhã na porta do banco.

No dia seguinte, o conto corria pelas bocas e jornais da cidade: o dízimo escorreu e desenhou no asfalto.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Doses homeopáticas


Tinha pouco: um estômago estragado pelo café e tantos cigarros, um subconsciente atrevido que produzia sonhos engraçados, um cuidado excessivo com a pouca saúde mental e a certeza reconquistada da realidade – mesmo essa, escorregadia e suspensa. Sóbria. Sem a anestesia do álcool, a promessa dos dias futuros ficava cada vez mais interessante para alguém que já conhecia o medo. Esquecia-se dentro de si, recebendo sopros da solidariedade alheia como resultado do maldito comentário distraído que só serviu para atrair olhares piedosos e convites para o bar. Ficava. Deixava-se ficar. O desespero ao lado – adiava. Lia. Trabalhava. Perambulava. Voltava. O mundo cada vez mais cheio de gente normal. O estômago burro cultivando o mau hábito de não ir embora enquanto reproduz um título universal. Como é que fica depois de? A trilha sonora perfeita. O atraso provocado. O afastamento. A acusação pendurada no cabide, ainda com etiqueta, ao avesso com todos os outros objetos que continuam falando de um mundo fácil e falacioso. Buscando nos cantos o ponto final, o golpe certo, o suspiro aliviado de quem já pode cair e chorar, encontrava apenas intervalos, a respiração presa, a ameaça. Talvez seja melhor assim – doses homeopáticas do fim. O grito preso na ausência. A lágrima abortada no fundo do silêncio que a dúvida deixa em cada esquina. Ainda não chegou a hora, baby. É só uma crise, o amor não é tão cruel. Talvez seja, mas não com quem não merece. Talvez seja, mas... em doses homeopáticas.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Velha roupa colorida*


Uma caixa escondida no fundo da estante guarda sua infância anêmica. O piso já não é o mesmo e o antigo cão peludinho que contraditoriamente armava emboscadas brutais contra panturrilhas desavisadas embaixo das camas foi substituído por um vira-latas preto que ri de todo mundo deitado no canto da porta.

A cidade está cada vez mais empoeirada pelo tempo.

Os sofás onde os pretendentes das irmãs mais velhas afundavam perplexos diante da entrevista cruel do pai também foram substituídos por outros onde alguns namorados distraídos das irmãs mais novas sentam para uma cerveja de domingo e as piadas do pai inofensivo. O novo sofá já não protege o coração das filhas mais novas nem as condena ao casamento dos tradicionais valores da família cristã. Parece até que, por milagre, os tradicionais valores da família cristã foram esquecidos com a velha caixa na estante. Entre malandros e filósofos, hippies e índios, maníacos-depressivos e dependentes químicos, todos encontram no velho pai um companheiro de copo e de pesca. A casa foi ficando vazia de filhas durante a semana e repleta de estranhos aos sábados, com dois netos que passaram sem que ninguém percebesse dos carrinhos de bebês para o chão do quintal dali ou dos vizinhos. Os conflitos morais na cozinha foram substituídos por debates históricos no bar. Todos cresceram. Todos. E alguns já começam a morrer.

De repente, o mundo ficou assustadoramente maior – com aeroportos e empregos no meio do caminho. Ao invés de uma permissão ou bronca, o pai lhes deseja sorte, alheio ao passado silencioso dentro da estante e à imensidão que contaminou o mundo.

Seus dedos um tanto afetados vasculham as fotos antigas com uma discreta obsessão por descobrir quem havia sido. Desde que fora embora para tão longe havia adquirido essa falsa nostalgia romântica de quem optou pelo exílio como zona de conforto das relações pessoais.

E o mundo já não cabe em uma caixa de fotografias antigas.

E, de repente, o mundo ficou encantadoramente maior.


*“E o passado é uma roupa que não nos serve mais”

Belchior

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Querida Nina,


Como você está? Espero que esteja bem...

Ficamos muito contentes de receber sua carta e saber que você está se adaptando bem aí.

Eu estou bem aqui... todo fim de tarde me sento nos degraus de madeira esperando o inverno chegar, embora já tenha entendido que aqui o frio é de mentira. Tento não pensar na distância, mas as vezes me entristeço a ponto de explodir em choro e chatice até incomodar dois estados inteiros.

Nunca mais tingi os cabelos e tenho visto uns fios brancos quando vou secá-los – sempre me lembro de você e penso nos comentários que faria se visse minha velhice chegando.

Abelardo andou extremamente desconcertado por causa da cegueira e tenta disfarçar a todo custo, embora seus olhos estejam cada vez mais leitosos e ele vacile cada vez que tenta descer os degraus da cozinha. O que lhe devolveu o bom humor foi um novo amigo que chamamos de Mateus – um vira-latas marrom que faz xixi na cozinha e passa as tardes com Abelardo descobrindo o quintal, sempre muito paciencioso e tolerante com as manias do amigo cego. Quantos anos tem o Abelardo?

Dona Pompeia está cada vez pior da memória e toda semana me pergunta por você quando está varrendo o quintal. Antes eu sempre dizia a verdade, depois comecei a brincar de contar uma história diferente a cada vez que ela aparecia. Até que um dia disse que você fugiu com um cigano e ela simplesmente virou as costas e saiu arrastando a perna direita enquanto resmungava que sempre soube que isso aconteceria. Contei ao Rui e ele me repreendeu por estar confundindo ainda mais a cabeça da pobre dona Pompeia, por isso parei com a brincadeira – mas agora ela acredita em qualquer história que eu conte, menos na verdade e sempre me pergunta pelos ciganos. Você conhece algum cigano, Nina?

Carla vai se casar com aquele rapaz que trabalha no banco. Os dois aparecem toda quarta-feira com uma garrafa de vinho ou um bolo de cenoura e sentamos na varanda pra conversar e ouvir seus discos.

Rafael está fazendo faculdade e descobrindo as misérias da vida acadêmica, mas sempre aparece também pra brincar com Abelardo e pegar livros do Rui. Disse-me que está apaixonado por uma garota e que não tem a menor ideia do que fazer com isso.

A casa continua sendo de todo mundo do jeito que era quando você estava aqui, embora não tenhamos mais seu violão. A cidade toda acompanha suas publicações e espera sua visita.

Dia desses, estava voltando do cinema sozinha e pensei que seria assaltada, mas o sujeito me recitou um poema de rua. Você tinha razão, Nina: há tanta vida no meio-fio e quase nada naqueles corredores que agora também me acusam de.

Até que estou me virando bem entre tantos técnicos-fantoches-de-pano-e-de-vaidades, mas você sabe que isso cansa pra cacete, pois também já foi uma forasteira.

Continuo apaixonada, acredita? Descobrimos que é muito bom cuidar um do outro e ele ainda me abraça três vezes ao dia como fazia meio sem querer quando nos conhecemos.

Estou quase terminando meu livro e quero que você seja a primeira pessoa a ler. Gostaríamos muito que você viesse passar o Natal conosco e acredito que até lá o livro já estará concluído.

Dizem por aqui que você vai publicar uma crônica sobre seus 80 anos e estamos todos muito ansiosos.

A propósito: feliz aniversário! Espero que goste do presente – foi o Rui que escolheu, pois disse que você gosta da cor verde.


Abraços,

Ana.


PS: as luzes continuam acesas.



Imagem de Andy Kehoe

sábado, 4 de junho de 2011

Em voz alta


Buscava elementos literários para um conto oferecido: um varal torto, um vinho chileno, três dias...

Três dias ou um ano? Um ano não cabe num conto. Quem sabe um tratado sobre 30 anos de atraso – um pedido de desculpas por essa juventude inconveniente: “Sorry, baby. Nasci tarde demais, passei 24 anos por aí e depois te encontrei”.

Um passarinho metido a despertador, um abraço bem apertado, um sofá pequeno demais...

Um clássico da literatura universal em prosa erudita sobre o tempo ou um manual prático sobre o amor em três idiomas – sem maiores pretensões. Personagens arrogantes que se encontraram, se perderam e voltaram a se encontrar. Alguma distância para enfeitar e verbos infames de alguém que custou a aprender a pieguice das declarações de amor.

Um beijo de boa noite, uma cama barulhenta, um carinho de bom dia, muitos degraus, cordas...

Um romance ilustrado por poucos objetivos, alguns planos loucos, desejos confessos, impublicáveis, participações especiais e um tanto de saudades.

Receita de bolo... ou daquele pãozinho doce que é preciso saber fazer antes de querer casar misturada com obscenidades escritas na pele a quatro mãos por corpos atentos e corações distraídos.

Um poema distante: “O mundo é tão antigo, amor...”

Múmias, bares, sotaques e olhares em versos pitorescos. Nestas rimas de palavras cadentes que atrapalham os dias, atravessam as madrugadas, se perdem e voltam a se encontrar no meio do caminho de dois personagens arrogantes.


Imagem de Otto Schade encontrada aqui

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Intervenção


O Pai lê Kerouac e espalha sua fumaça ilícita pela casa enquanto a Filha-Jovem-e-Bonita vê o Domingão do Faustão e a Esposa Dedicada lava a louça do almoço excitada lembrando das mãos firmes do pastor segurando sua cintura na noite anterior após o culto. Percebemos apáticos que a cultura beat, a luxúria reprimida e a anticultura global continuam temperando a Sagrada Instituição – mas Machado e Cortazar já não podem fazer disso um bom conto.

O Filho Menor – pobre criança confusa – sentadinho na porta da cozinha, observa a expressão feliz da Mãe e se pergunta quem é louco: o Professor Afetado com sua campanha antidrogas ou o Pai preguiçoso, com sua fumaça fedida e suas ideias de um mundo que ninguém em casa nunca viu? A Mãe parece não se incomodar com a fumaça... A Irmã-Jovem-e-Bonita sim, embora ninguém saiba que seu incômodo é mais pela felicidade inconfessa da Mãe do que pela contracultura do Pai.

Parece insólito, mas a única parte surreal dessa história é que o apresentador global está convidando toda a população para a “Corrida da Paz” no Complexo do Alemão - “refazendo o percurso de fuga dos traficantes...”

O Pai levanta os olhos e ri irônico, sendo o único ser humano da casa a notar a “complexidade” do evento. A Filha se irrita um pouco mais e a pobre criança confusa desiste de observar a Sagrada Instituição onde teve a desdita de nascer e vai brincar com o filho do vizinho, que enfrenta situação parecida, mas ninguém fala no assunto.

A Filha pinta as unhas de vermelho-sangue, com a perna direita dobrada sobre o sofá, de roupa curta e coxas a mostra sonhando a sensualidade da Mãe. Ainda é incapaz de saber que está muito longe de atrair as mãos famintas de pastores e o interesse vagabundo de sobreviventes decadentes da geração beatnik com suas unhas de puta amadora.

O Pai finge que não vê, mas entre uma frase e outra de sua preciosa literatura, observa orgulhoso a excitação da Esposa Dedicada pela porta da cozinha e pensa que é o resultado da trepada medíocre da madrugada.

Ao cair da noite, o Pai sonha de olhos abertos com uma alucinante corrida de mãos dadas com traficantes, policiais e a Janis Joplin no Complexo do Alemão. A Esposa Dedicada arruma os cabelos para o culto e veste um vestido discreto para as mãos firmes do pastor. A Filha-Jovem-e-Bonita já está nua e frustrada no quarto de um aspirante a homem que amarga mais uma ejaculação precoce, mas que tem lá suas qualidades (Freud? Nelson Rodrigues?): ostenta com virilidade intelectual uns livros amarelados de Ginsberg, Burroughs e (claro!) Kerouac que herdou de um tio desaparecido e produz a mesma fumaça ilícita cuidando para que a mãe não desconfie de nada.

O Filho Menor – pobre criança confusa – brinca na esquina com o filho do vizinho, alheio aos rumos da Sagrada Instituição onde teve a desdita de nascer.

E alguém fala no assunto na segunda-feira, em uma sala abafada de uma repartição pública com duas aspirantes a profissionais que abafam um sorriso cúmplice e lamentam não ter a inspiração nem o vocabulário de Machado ou Cortazar, para transformar em um bom conto, mais este típico domingo familiar.


Desconheço a origem da imagem.



domingo, 3 de abril de 2011

Dias e Prosas de Amelie


E a cada gole de “deixa pra lá”, o homem que só consigo classificar como deliciosamente anacrônico vislumbra um pouco mais dos mundos que se escondem por trás de janelas enfeitadas por flores e loucura.

Enquanto uma delas espalha fios de cabelos loiros pelo quarto fazendo uma escova, com a lingerie de oncinha sobre a cama e uma música sofisticada no rádio, a outra prende os fios escuros e maltratados numa presilha, calça seu allstar preto e acende um cigarro ao som de The Frames.

O homem deliciosamente anacrônico ri, pois ambas são loucas, mas sonham loucuras inéditas de Nelson Rodrigues e Gabriel Garcia Marquez com aquele toque literário que uma imprimiu na vida da outra e que agora resulta em carros batidos e planos sexuais mirabolantes em janelas distintas. Forasteiras em terras que não reconhecem seus erres, sozinhas em apartamentos pequenos demais para tantas expectativas e cidades grandes demais para tanta solidão na qual cada uma delas se reconhece e se descobre.

“A vida não é só festa, Amelie...”

Ora, a vida não é só Filosofia nem só Assistência nem só esse trânsito infernal na volta pra casa. A vida é uma noite, Amelie!

E aqui ou lá, em janelas distintas e loucuras inéditas, sob o olhar embriagado de um personagem de Rodrigues ou de Gabo, elas aprendem impunes que seus ossos não são de vidro e que sempre há uma lingerie ideal no fundo do guarda-roupas para este ou aquele final de semana de nostalgia, de amor, de coragem ou de pura diversão.


Por inspiração deste primor aqui

Foto de Violeta Niebla

segunda-feira, 14 de março de 2011

“Todo carnaval tem seu fim”


Parece que a cada momento é algo diferente... Um outro desafio que aí seria simples, haveria alguém ao seu lado com uma resposta pronta, com uma caneta nas mãos e uma risadinha familiar pra dizer que carnaval é assim mesmo... todo mundo comete excessos.

Aqui, pode ser que você encontre algo depois daquela subida forte – porque há sempre uma subida forte entre você e qualquer coisa de que precise.

Aqui, você sempre precisa de algo que não sabe onde está, ou que espantosamente não existe.

Aqui, não existe o muro das lamentações ou, na pior das hipóteses, você é o muro.

Por outro lado, aqui existe uma infinidade de coisas que você não sabia que existia e que nunca vai saber pra que serve. Coisas de uma capital...

Hoje, você ousa afirmar que todo mundo é louco numa capital, inventando coisas que não servem pra nada ao invés de inventar um bom muro onde se lamentar.

E você se apaixona por qualquer par de olhos grandes e cabelos parecidos com os teus...

Se apaixona e vai embora, deixando aquele par de olhos grandes no ponto de ônibus onde a solidão é uma merda e fica pensando que deveria ter ficado, que deveria ter falado “Olha, eu também não entendo a capital e também sinto falta do frio...”

De onde ela vem faz frio e seus olhos ficam lindos quando ela fala da saudade que sente...

E você pensa que aqui deve ser assim mesmo – voltando do trabalho todos os olhos são lindos de saudades de um outro tempo ou de um outro lugar. E, na fila do mercado, alguém tenta fazer com que seu realismo seja menos fantástico, mas você prefere beber sozinha...

“Bruna Surfistinha! Vamos ver?”

E você vai... Vai porque precisa de qualquer coisa que faça seu estômago esquecer que ele vai embora daqui a pouco e você vai ficar sozinha de novo nesta capital de merda. Perambula pelas ruas com a mochila pesada demais nas costas sem ter pra onde voltar, mesmo antes de saber que voltaria para uma janela arrombada e mais dois ou três pesadelos.

A sensação de não ter pra onde ir depois de três dias inteiros com ele e mais ninguém...

Você sai desse carnaval espantada com tanto carinho que até o mês passado ninguém sabia onde estava... Provavelmente, escondido depois daquela subida forte ou em algum lugar da gente que só se manifesta quando o vê na plataforma de desembarque pronto pra um abraço que ninguém sabia que poderia ser tão bom.

“Sorry, baby. Juro que não era pra gostar tanto assim do teu abraço.”

“Juro que queria saber a hora certa de acordar.”

E você só queria dizer que não foi por coragem que veio até aqui. “Foi o inverso, coração. Coragem seria ficar e mandar à merda a obrigação de vencer na vida.”

Mas, você não diz nada... Afinal, é carnaval e está chovendo. Ele está orgulhoso da sua “coragem”, suas pernas já estão se acostumando com tantas subidas fortes, você já não se lamenta mais, o realismo também é fantástico por aqui e vocês tem um curta para produzir neste feriado que logo acaba.


"Deixa eu brincar de ser feliz/deixa eu pintar o meu nariz"...

(Todo carnaval tem seu fim - Composição: Marcelo Camelo)


Tela: Jacek Yerka - 1952

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Flores de Luz


Naqueles dias em que já começava a se despedir da cidade, em uma manhã de chuva fina e sol, sentada em um ponto de ônibus na Guararapes com duas sacolas de mercado nos braços, observava a pichação com letras grandes no muro do outro lado da rua: “O amor é importante, porra”.

Enfeitava a luminária com flores de silicone sentada no chão do quarto e ouvia música baixinho. Nem dois anos aqui e foram tantas descobertas... Pensava na situação do autor da frase da Guararapes e no seu grito injuriado, talvez bêbado numa madrugada, talvez cansado de pensar no significado das coisas.

Apagava a luz do quarto e ficava admirando as flores iluminadas. Nem dois anos e até os muros da cidade já diziam que ir embora dói, mesmo com as promessas de felicidade em outros lugares, mesmo que a gente sempre soubesse que essa equipe multiprofissional iria se desfazer mais cedo ou mais tarde... Mesmo que a palavra “caso” já dissesse que haveria um começo inesquecível no sofá da sala, um meio surpreendente na tua cama e um fim precoce com quilômetros demais entre duas pessoas que não queriam viver um grande amor.

A luminária estava toda florida no fim da tarde... Encostada no guarda-roupas, pensava em começar a encaixotar algumas coisas, deixar a maior parte dos livros na casa dos pais por ora, levar só as roupas, sapatos e a luminária, como se fosse voltar logo e fosse precisar de poucas lembranças além do essencial e das flores de luz.

Pensava no que picharia em um muro da Guararapes nesta noite... O que diria pra cidade da qual se despedia?

Voltava a escrever e pensar nos aspectos práticos – era isso que ele faria. Perguntaria coisas aparentemente simples sobre a mudança e evitaria as palavras que indicassem que as pessoas sentem falta umas das outras sentado na cozinha, com os óculos sobre a mesa e o olhar parado em algum lugar desses últimos meses.

No entanto, ela estava sozinha no quarto olhando a luminária. Queria ser igual a ele – tão racional... Queria pensar no futuro profissional, nos “aspectos práticos”, nas intermitências da vida e na mentira que inventaram para acreditar que este episódio ainda não merece que este texto receba o mesmo título do livro que a levou até ele.

Queria inventar um título, um best-seller, um romance conveniente ou qualquer porcaria capaz de levá-lo até ela dessa vez – só pra variar um pouco. Porque, encostada na porta do guarda-roupas, fumando um cigarro e olhando as flores de luz, ela sabia que tudo ficaria bem e que coisas boas iriam acontecer com ela e com toda a equipe, onde quer que fossem morar... Mesmo que, lá fora, a cidade toda gritasse com seus muros e jardins, que ir embora dói.

Ela sabia que o futuro se anunciava bom, que a mudança traria tantos novos conhecimentos e que em breve iria se acostumar com o novo trabalho, iria fazer mais amigos, se comover com os gritos de outros muros, se apaixonar por outras cidades e talvez ele a visitasse algumas vezes no início... E ela também sabia que nunca mais haveria uma equipe multiprofissional igual a essa e que provavelmente não haveria um muro das lamentações no seu próximo ambiente de trabalho, nem uma pessoa tão desaforenta quanto a Farmacêutica no quarto ao lado onde quer que fosse morar. Será que um dia encontraria outro Fisioterapeuta que beijaria o próprio ombro ao se despedir só pra fazê-la chorar de rir? Será que lá haveria uma Educadora Física cantora de funk? Uma Enfermeira descontrolada? Alguém disposto a sentar com ela no meio-fio, embaixo de chuva pra tomar cerveja no saquinho? Faltou tempo pra tanta loucura... Faltou pouco tempo pra um último porre com a Regiane na Keiko.

E, por causa de tudo isso, ela pichou um lamento na Guararapes, gritando sua despedida com uma ou duas lágrimas no copo de caipirinha em homenagem a Psicóloga que ninguém sabe por onde respira...

Em homenagem a equipe multiprofissional, a esses quase dois anos de resistência e ao autor anônimo do grito injuriado em um muro da Guararapes.