domingo, 4 de outubro de 2009

Equipe Multi


É que lá não tem água potável e o banheiro é um negócio complicado. Disputadíssimo. E serve até de estacionamento pra uma monareta de mil anos. Isso que dá trabalhar na saúde pública. É cada coisa que a gente vê. E ainda por cima em equipe multi. Multi. Multi... tudo isso e nada ao mesmo tempo. Preciso pensar em um tema pra TCC e comprar algumas coisas pra viagem. Viajar. Viajar. Viajar. Tá bom, eu vou fazer academia de manhã pra não precisar deixar de ir a Keiko no fim da tarde. Porra. Eu tenho o direito de beber todos os dias porque trabalho na saúde pública e moro no fundo de uma caverna no meio do circo dos horrores e sei que os ratos estão pelos corredores. Você também iria beber todas as tardes conversando com hippies baianos, capoeiristas, cães da rua, amigas desaforentas e toda a legião de seres fantásticos que habita aquele bar deliciosamente sórdido onde os fregueses podem ser açoitados por mijar na calçada. Um dia alguém ainda vai fumar aquele japonês e eu quero muito estar presente. Pobrezinha. Além de assistente social foi trabalhar na saúde pública. E ainda por cima em equipe multi. Multi. Multi... quinze mil oitocentos e quarenta e sete maluquices por dia. Taras, cleptomania, psicopatia, narcolepsia, sexo grupal, blastos revoltados, terreiros de umbanda, laqueaduras, fígados rejeitados, uniões instáveis, orgias gregas, hipocondria e gripe H1N1. Tudo que a gente leva pra dentro da Keiko no fim da tarde e enfia goela abaixo com um gole da skol mais gelada do mundo entre um pacote e outro de torcida. Não tem estômago que aguente. Nem blastos. É muita coisa pra um portfólio. É muita coisa pra quem precisa dormir pelo menos dez horas por dia... Não tem meditação que dê jeito. Nem ioga, nem box nem porra nenhuma de exercício físico nem acupuntura nem viagem nem bolsa nem nada. O jeito é ir levando entre uma biópsia de medula e um porre. Entre uma laqueadura e uma coxinha de frango. Entre a vacina e a G.O. O jeito é ir pra academia de manhã ouvindo qualquer coisa que me faça acreditar. O jeito é viajar de avião porque de ônibus leva umas quatorze horas. E olha que sessenta das minhas horas semanais pertencem única e exclusivamente à RMSF. E eu fiz isso voluntariamente, ninguém me obrigou a nada. Dois e trezentos é pouco, né não, Regi? Haja blastos e estômago e hippie neste mundo. Cazuza nem existe mais, aceite. Agora ele toca gaita e faz fisioterapia e natação e nada de Keiko. Pois é... Perdemos essa. Cazuza morreu. Mas, nem tudo tá perdido: a Jú tá indo pra lá com mais frequencia no auge dos seus setenta e oito anos. Isso sim é que é exemplo de vida. Nem que for pra chorar dor de amor e as neoplasias da vida... o bar a gente não abandona. Senão, o que resta? Comer coxinha e beber tubaína de limão na padaria que agora nem toldo tem... o vento levou. Daqui uns dias o terremoto vem também e não sobra nem a lembrança de Ibiporã. Aquela porra me lembra Macondo. E a gente pensando que era a Jamanta, hein Equipe? Lá a destruição é em massa mesmo. Vem tufão e fode com a cidade inteira. E gripe. E a equipe permanece. A equipe tem o perfil de Ibiporã. Pede uma pizza com borda recheada e todo mundo se diverte com treze quilos de catupirí por pouco não vomitados por conta dos testículos de um ser grande que fala até pelos cotovelos. E rouba o MEU pedaço de tomate seco. Pelo menos todo mundo ainda tem mamilos, né não Bruna? Tenho um medo da porra. A coisa toda é o perfil deste bando de lunáticos? Será que alguém explica? Diz aí, Regina Gil. Pelo menos não tem mais primeira-dama do narcotráfico local. Aquilo já tava perdendo a graça e só quem vive com a cabeça lá em Campo Mourão é que demorou um pouco mais pra perceber isso. Nem o Angeli conseguiria criar um enredo tão pitoresco. É a porra do perfil, né não Equipe? Todo mundo militante do SUS apesar de Jamanta, Tufão, Terremoto, Blastos, Exú da Bicicletinha e o diabo... Sempre uma aventura!
A gente se vê amanhã... lá em Ibiporã.
Segunda-feira é dia de Keiko, né não?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Mundo


Havia um Sujeito Levemente Esverdeado na esquina, uma Senhora Muito Magra olhando para as mãos no ponto do ônibus e uma Garota com uma grande mochila roxa encostada no muro com uma pequena Salamandra no ombro. As Formigas passeavam tranquilamente pelo meio fio e o Vento soprava calmo, indiferente, impertinente tentando irritar a Salamandra.
Havia um muro azul com frases bíblicas e uma Freira que andava apressada em frente a um ferro velho com seu hábito pesado escorrendo asco e virtude, roçando o chão poeirento e as Formigas despreocupadas.
A Salamandra olhou demoradamente para a Freira com expressão de divertimento. O Sujeito Levemente Esverdeado acendeu um cigarro e ofereceu à Salamandra.
Havia um Sujeito Levemente Esverdeado e uma Salamandra fumando na esquina enquanto a Senhora Muito Magra que olhava para as mãos rezava baixinho para que os Anjos parassem de beber e fazer barulho nas escadas à noite.
O Sol fazia buracos na superfície do dia e a Garota repreendeu a Salamandra por fumar.
O Tempo tocava piano para acalmar o Sol, os Pássaros voavam fatigados e as Flores sofriam de um leve transtorno mental característico das tardes quentes demais.
Os Carros corriam, as Mulheres choravam, os Homens vagavam e as Crianças fingiam que não sabiam de nada voltando escandalosamente das escolas enfadonhas com seus uniformes suados e suas mochilas grandes demais e seus cabelos despenteados.
Um Hippie pediu um cigarro à Salamandra que ficou desconcertada e olhou para o Sujeito Levemente Esverdeado que deu um cigarro ao Hippie e depois comprou uma pulseira de mandalas em couro.
As Formigas continuavam sua marcha descontraída e a Senhora que olhava as mãos levantou a cabeça e pediu ao Hippie um cigarro.
Ele disse que só tinha maconha.
A Freira parou no ponto do ônibus e olhou com dureza para a Salamandra, para o Hippie e para o Sujeito Levemente Esverdeado.
No jardim de uma mansão do outro lado da rua uma Mulher Lânguida chorava e dizia: “Oh, meu umbigo, meu umbigo...” enquanto seus Filhos cresciam alheios às lágrimas e ao umbigo da mãe ouvindo as histórias das Formigas que moravam no jardim e queriam fazer uma parceria com os Tatus para criar um partido anarquista ultra radical. Os Tatus ficaram preocupados e disseram as Crianças que as Formigas estavam em crise existencial.
A Salamandra saltou do ombro da Garota e foi pedir maconha ao Hippie, que sorriu para a Freira e saldou as Formigas Anarquistas.
Resolvi ir embora e, de longe, eu ainda ouvia a Mulher Lânguida chorar e repetir: “Oh, meu umbigo, meu umbigo, meu umbigo...”

sábado, 12 de setembro de 2009

Sobre Bruxas e Anjos


Era uma vez (outra vez...) uma pequena Bruxa chamada Roberta. Pequena, porém muito astuta - presidente do sindicato das bruxas, militante da desburocratização da maldade e da socialização da magia.
E também tinha uma Princesa neste conto, mas ela tinha umas taras estranhas por Anfíbios... nem vamos falar sobre ela.
A Bruxa Roberta vivia pela causa da bruxaria e sofria de insônia, até que, em um dia cinza no qual procurava um advogado para articular a instituição de um piso salarial para as bruxas, atropelou uma criatura descabelada que atravessava a rua distraidamente para ir à padaria. Roberta percebeu que aquele ser não deveria ser humano, pois era descabelado demais... Desceu do carro desconfiada, olhou o sujeito caído no asfalto e confirmou sua suspeita:
- Eis que eu atropelei um anjo!!! - gritou vitoriosa
- Ajude-me, por favor - sussurrou o Anjo Descabelado com o cotovelo todo estourado.
- Ajudo não, sou Bruxa. Ajudar não é meu departamento.
- Esqueça isso. Sou Anjo, mas vou foder com a sua vida se não me ajudar a me levantar. E garanto que foder com a vida dos outros também não é meu departamento.
- Você não consegue se levantar, e eu tenho um carro... vou acabar de matá-lo.
Então a Bruxa Roberta entrou calmamente no carro e acelerou para acabar de matar o Anjo Descabelado, mas as Fadinhas Desaforentas apareceram e levaram o tal Anjo, que ainda teve a pachorra de fazer um gesto obsceno para a Bruxa enquanto era carregado por aquela revoada de fadas (des)encantadas.
Roberta ficou furiosa, mas se lembrou que tinha outros assuntos para tratar e foi atrás do advogado. Ao sair do Sindicato, encontrou o Anjo Descabelado empoleirado sobre o capô de seu carro, olhando-a de forma petulante e desafiadora.
- Tem três coisas que eu gostaria de te perguntar: Por que é que anjo é tão descabelado, tão imbecil e por que cagou no capô do meu carro?
- Imbecis nós não somos, e nossos cabelos são assim porque nós voamos! Não dá pra ter cabelos arrumadinhos – isso só em filme. E eu não caguei aqui, foi uma pomba!
- E você é o que?
- Eu sou um Anjo!!
- Pra mim é tudo a mesma coisa. E agora me dá licença, porque eu tenho ojeriza do barulho das suas asas.
E a Bruxa Roberta foi embora, deixando o Anjo Descabelado empoleirado na mureta do estacionamento com aquele sorrisinho insuportável de quem não vai desistir tão cedo.
Sim... isso é um conto de fadas, e este Anjo Descabelado está apaixonado pela Bruxa Roberta.
Afinal, até mesmo as bruxas precisam de um anjo.
Naquela noite, o Anjo Descabelado entrou no quarto da Bruxa Roberta silenciosamente enquanto ela dormia e contou-lhe histórias de anjos velhos, diabinhos presos em garrafas e japoneses capitalistas que cobram a parte pelos copinhos enquanto ela sorria sentindo a fala cantada do Anjo acariciar seu sono. E, desde esta noite, todos viveram felizes para sempre...
A Bruxa (que nunca mais sofreu de insônia), o Anjo (que continuou apaixonado pela Bruxa apesar de todos os palavrões, discursos políticos e feitiços estapafúrdios), as Fadinhas Desaforentas (que também criaram um sindicato a exemplo das bruxas), a Princesa Pervertida (que casou com um Sapo chamado Eusébio) e até os Anfíbios (que ficaram livres dos assédios da Princesa).
Era uma vez uma Bruxa chamada Roberta e um Anjo Descabelado...

PS: Juro que este é o último. E o dedico à Roberta Figueiredo.

sábado, 29 de agosto de 2009

Era uma vez...


Uma linda princesa cheia de desamor, um rei alcoolista e uma bruxa pianista. Órfãos bem resolvidos e fãs do Sílvio Santos em um reino chamado Delânia.
Um dia a princesa cheia de desamor começou a matar os órfãos afogados, queimados e/ou envenenados. Todos sabiam, não há mistério no nosso [des]conto de fadas.
Onde estão as fadas?
Fazem aula de piano com a bruxa, que deixou a maldade por conta da princesa, do rei e de toda a côrte e foi dar aulas de piano grátis para quem não podia pagar. Foi intimada a comparecer na delegacia de Delânia por abandonar seu cargo milenar e alegou de forma petulante que não gostava de concorrência.
Abandonou a profissão - de bruxa só carrega o nome, as roupas e o caldeirão.
Então um policial chamado Juca encontrou os corpos de mais dois órfãos, inchados e azuis no fundo do romântico lago onde o rei costumava cantarolar as músicas do Aerosmith em suas noites de boemia. Foi pedir à bruxa que tivesse uma conversa com a princesa, que resolvesse a situação e retomasse as rédeas da maldade. A bruxa fez cara de desinteressada, mas foi. Voltou dizendo que a princesa estava irredutível.
As fadas estavam esperando impacientes pela aula de piano e falavam sobre Ludovico Einaudi com euforia quando a bruxa chegou apressada dizendo que a princesa havia ficado horrível com aquela progressiva nos cabelos - sempre gostou de cachos.
As fadas começaram a fazer perguntas e a bruxa contou sobre os assassinatos. Ficaram chocadas, pois não viam televisão então eram as únicas que não conheciam as práticas homicidas da princesa. Resolveram interferir:
- Vamos fazer um espetáculo de piano e convidaremos todos os órfãos, depois os alertaremos e tentaremos fazer com que fujam para outro reino bem, bem distante.
A princesa soube da festa e resolveu que era uma ótima oportunidade de matar todos os órfãos. Colocou cianeto na cerveja e matou os órfãos, as fadas, a bruxa e até Ludovico Einaudi, que era convidado especial.
Por sorte o rei havia bebido três litros de Jack Daniels naquela tarde e dormiu sentado no vaso quando ia tomar banho para ir a festa.
Juca encontrou a princesa jogando os corpos no lago.
- Porra, princesa. Já estão todos mortos, pra que jogar no lago?
- Eu matei! Faço o que quiser com os corpos.
- Tem que parar com essa mania de matar as pessoas. Princesa tem que ser meiga, delicada, medrosa e amar todo mundo.
A princesa parou repentinamente com o corpo de um órfão moreno e caolho nos braços e olhou para o Juca como se ele fosse o próximo a ser atirado no rio. Soltou o corpo do órfão moreno e caolho no chão e foi pra cima do Juca. A bruxa, que se fingia de morta, deu um pulo e gritou com voz de bruxa:
- Pode parar princesa! Já chega dessa palhaçada. Matar o Juca já é demais.
A princesa ficou puta de raiva e disse que a bruxa deveria estar morta.
- Onde já se viu bruxa morrer com cianeto! - respondeu com as mãos na cintura.
Então, a bruxa derrubou a princesa no chão, sentou-se sobre suas pernas e agarrou seu pescoço. Bruxa profissional e experiente, em poucos minutos enforcou a princesa e jogou o corpo no lago.
Juca se apaixonou pela bruxa e a pediu em casamento. Ela o questionou sobre assuntos políticos e sobre as motivações que o levaram a ser policial. Deve ter gostado das respostas, pois aceitou a proposta e os dois teriam vivido eternamente/terrivelmente/tacanhamente/desesperadamente/fantasticamente felizes,
não fosse o rei ter chegado cantando Amazing e amaldiçoado a vida conjugal deles.
The End.

sábado, 25 de julho de 2009

De repente


E de repente o que antes era tão importante já não fazia a menor diferença. Fui me acostumando tanto a você, que já sentia um certo desconforto ao imaginar meus finais de tarde sem a sua companhia e ir ao mercado sem ter você pra me ajudar a encontrar as frutas e os produtos de limpeza.
E de repente a vida foi ficando sem cor, sem amor e sem rancor. Era só o dia a dia, um abraço, sexo, conversar, tentar dormir e depois todas as responsabilidades que chegam com o sol.
E eu nem vi tudo isso acontecer.
Hoje estou me perguntando o tempo todo como foi que chegamos até aqui.
Qual foi o caminho que nos trouxe até este silêncio de cumplicidade quando não há sentimento nenhum que justifique isso?
Não existe nada dentro de nós que sustente esta loucura... Será que você nunca pensa nisso?
Será que eu tenho que aprender a te amar para poder lidar com esta situação ou posso simplesmente pensar em você como alguém que eu quero ter sempre por perto?
Entregar-me á solidão da sua presença parece propício para estes dias de vida corrida, de início de profissão, de descobertas amargas, de mundo frenético.
Você é uma parcela de paz...
Você acabou por se transformar na minha necessidade de silêncio, de contato inexplicável, de loucura calma e talvez até apática.
Lembra-se dos nossos tempos de distância, das ligações noturnas, dos medos e anseios que nos faziam agir como dois imbecis que ensaiavam de forma desastrosa uma pretensiosa paixão?
Lembra-se daquele conto?
Éramos ingênuos e eu não estou querendo dizer que isso era de todo ruim.
Hoje somos este silêncio e você já não pode ver minhas lágrimas. Antes eu tinha coragem de mostrá-las a você... Mas, agora as lágrimas são incoerentes, os sonhos são perecíveis, a cor o amor e o rancor não nos dizem nada e...
De repente, posso lidar perfeitamente com esta situação.
Não nos preocupemos, as suas promessas já não afetam o meu estômago, eu já não espero por você e sua voz será sempre algo bom para eu ouvir de madrugada.
Você viu tudo isso acontecer?


Tela: "Silence" - Henry Fuseli.

terça-feira, 14 de julho de 2009

É simplesmente uma maneira de sobreviver


Como se não fosse necessário ter um anestésico as vezes e como se o som deste piano dissesse algo além dos 900km que separam duas pessoas sobreviventes.
Hoje eu morri mais de uma vez e parece que é sempre a ausência cortando meus pulsos para depois me dizer que nada disso é a morte, e sim a decadência que nós já conhecemos tão bem e que já é hora de parar de chorar para amanhã comer uma fruta pela manhã e caminhar na Avenida Tiradentes ouvindo Coltrane e passar por aquela praça e depois cumprimentar seu pastor belga com a familiaridade de velhos amigos e me alegrar quando ele sorrir pra mim.
Prometo te dizer bom dia com voz isenta, falar trivialidades no caminho para o trabalho com interesse incomum, sorrir para você todas as vezes que me olhar esperando um sorriso de cumplicidade e não ter os olhos sanguíneos de quem suportou as lágrimas sem filmes nem vodca nem cocaína durante um final de semana de dores de estômago, roupa suja e fotos.
Prometo gostar do almoço que você vai preparar para mim... Só não me peça para parar de fumar e escrever textos felizes.
Eu só queria mais um cigarro e algo líquido que fizesse doer um pouco menos.
Prometo não te mostrar os 900km que separam dois sobreviventes nem as marcas da decadência nos meus pulsos ou nos meus olhos sanguíneos.
Prometo não chorar lágrimas sem lembranças.
Prometo não mentir nenhuma mentira além daquelas que você me pedir.
Prometo estar bem e ser apenas uma Assistente Social cansada.
Prometo respirar tranquilamente esta política pública e engolir silenciosamente toda a tristeza que cabe em 900km.
Prometo sobreviver.


Tela de Ray Caesar

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Silêncio


Nós tínhamos uma vida bem tranquila. Pouco tempo juntos em cada dia de cansaço e som e raiva e vitórias ínfimas e cafés amargos e cigarros silenciosos e noites pequenas.
Nós tínhamos uma vida bem cega juntos...
Duas solidões dividindo um espaço pequeno em um ambiente gigantesco habitado pela nossa ausência.
Era pacífico... as músicas foram testemunhas disso.
Era constrangedor... minha cama também sabia.
Era bom... ainda está na minha pele.
Era estranho... estávamos lá.
Os primeiros dias foram difíceis, depois ficou insustentável e em seguida nós paramos de pensar nisso.
Nunca estávamos sozinhos - havia a literatura e o conhaque por (boa) companhia.
Algumas noites dormíamos juntos - outras, estávamos bem demais para isso.
Conversávamos... ou ficávamos em silêncio quando a solidão gritava tão alto que ficava impossível ouvir a voz um do outro.
Viver era algo quase imperceptível.
Contávamos nossos sonhos, observávamos nossos hábitos e vícios impregnados nas paredes e nunca mais pensamos em nada.
Sinais sutis determinavam movimentos, silêncios longos se transformavam em mãos estendidas, tons de voz eram abraços e olhares eram permissões tácitas.
Viver era bem escorregadio.
É sempre igual quando subo as escadas e me preparo para respirar o ar que só nós respiramos e sentir o cheiro que só nós sentimos e observar os hábitos e vícios que só nós impregnamos naquelas paredes.
Era um outro mundo. Uma dimensão à parte da vida que de tão carregadas de nós dois parecia existir só dentro da gente.
Viver era bem agonizante.
Amávamos dolorosamente cada canto e objeto daquele lugar insólito.
Vivíamos letárgicos cada momento sem cor.
Estou subindo as escadas e tudo isso me acompanha em cada degrau e a vizinha me diz "bom dia" como quem vê a cor desbotada dessas lembranças e o gosto de tudo isso se parece bastante com saudade e os cheiros e vícios e hábitos continuam lá, impregnados.
Minha pele sabia.
Só a solidão deixou de gritar.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Poemices


Não sou muito de ler poesias. Mas, alguns poetas me encantam... O Pessoa, por exemplo. E também tem o Poeta Mauro Rocha, que escreve poesias que eu gosto muitíssimo de ler.
Um dos poucos privilégios dessa vida besta que estou levando foi descobrir alguém para ler...
Explico:
Tenho lido a Dani... e as poesias dela também.
São oito horas diárias lendo sua psicologia, sua inteligência, seus sorrisos, sua companhia, suas palavras, seu bom senso, sua criatividade...
E depois, tem mais da Dani para ler.
Depois tem seus Retratos Cores e Silêncios.
Suas poemices...

É muito bom ler alguém que diz tanta poesia o dia todo e escolhe democraticamente o filme da noite e bebe caipira quando a grana tá curta demais para cerveja e sofre junto as dores do Caio todas as manhãs no ônibus...

E é da Dani que vem a poesia que segue, premiada no IV Concurso Literário "Cidade de Maringá" - tema: "Roça", pela Academia de Letras de Maringá.


Lavra (dor) Borboleta no Asfalto


Das mãos calejadas
Do suor do seu rosto
O alimento dos meninos

Dos olhos brilhantes
Das costas arqueadas
O peso do mundo

Na face aflita
Na boca, nos dentes
Os sonhos caídos

Nos ombros pesados,
No sorriso apertado
A árdua vida

Da terra se fez homem
Da pedra se fez firme
Dos caminhos se fez justo

Com suas unhas
Percorre as entranhas da terra

Com seus braços
Devasta os caminhos do mundo

Com seus olhos
Alarga o sol no horizonte

Com seu corpo
Recebe a benção da chuva

O sol renasce em seus olhos
A água brota de sua fronte
A semente nasce em seu peito.


PS: Minha homenagem por seu talento e meu carinho por sua imprescindível companhia nestas nossas (por vezes ingratas) jornadas de trabalho e estudo.