quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Doses homeopáticas


Tinha pouco: um estômago estragado pelo café e tantos cigarros, um subconsciente atrevido que produzia sonhos engraçados, um cuidado excessivo com a pouca saúde mental e a certeza reconquistada da realidade – mesmo essa, escorregadia e suspensa. Sóbria. Sem a anestesia do álcool, a promessa dos dias futuros ficava cada vez mais interessante para alguém que já conhecia o medo. Esquecia-se dentro de si, recebendo sopros da solidariedade alheia como resultado do maldito comentário distraído que só serviu para atrair olhares piedosos e convites para o bar. Ficava. Deixava-se ficar. O desespero ao lado – adiava. Lia. Trabalhava. Perambulava. Voltava. O mundo cada vez mais cheio de gente normal. O estômago burro cultivando o mau hábito de não ir embora enquanto reproduz um título universal. Como é que fica depois de? A trilha sonora perfeita. O atraso provocado. O afastamento. A acusação pendurada no cabide, ainda com etiqueta, ao avesso com todos os outros objetos que continuam falando de um mundo fácil e falacioso. Buscando nos cantos o ponto final, o golpe certo, o suspiro aliviado de quem já pode cair e chorar, encontrava apenas intervalos, a respiração presa, a ameaça. Talvez seja melhor assim – doses homeopáticas do fim. O grito preso na ausência. A lágrima abortada no fundo do silêncio que a dúvida deixa em cada esquina. Ainda não chegou a hora, baby. É só uma crise, o amor não é tão cruel. Talvez seja, mas não com quem não merece. Talvez seja, mas... em doses homeopáticas.

3 comentários:

Dani Santos disse...

... tentei preparar meu estomago-baço-pâncreas antes de ler... sabia... q iria ser foda mesmo em doses assim, hum... homeopáticas. esses silêncios e torpores, medos, todos eles dissolvidos em pequenas doses de alcool e agonia... pra aliviar o inverno que passa, a primavera que chega, os dias que insistem em se fazer vermelhos aos fins de tarde.

que doa, apenas o que se deve doer, não mais. enfim...

abraço imenso...

Flor com Espinhos disse...

se não fugirmos da dor, talvez aprendamos com ela...

Pedro Gabriel disse...

Olá, eu sou quem escreve no blog AMORRAGIA. Andei sumido do mundo virtual, mas estou reorganizando minha vida on-line ;-).

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Obrigado,
Pedro Gabriel