quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O pão nosso de cada dia


O milagre da MULTIplicação. Sete pães para irmãos que se multiplicam no milagre da aprendizagem. Na campanha da salvação... Sete pães que apodrecem nas repartições públicas. Nos cofres da Nação... Pães de hipocrisia, de afastamento, de negação. O trigo da autocracia burguesa, do ranço paternalista, da garçonete soberba... Da segregação. Pães de política suja, de mediocridades provincianas, de interesses avessos... De exploração. O pão do trabalhador alienado, do usuário esfaimado, do profissional robotizado... O pão da dominação.
A fome da equipe MULTI não se mata com este pão.
A equipe multi come e vomita indignação. Com seus jalecos de fuxico, seus pontos de dor, jamanta, sono e este verão... A equipe multi mastiga o pão amargo da resignação. Enquanto sonha com o milagre da multiplicação. Do trigo da liberdade. Do pão da expressão. Que sacia a tal fome de democratização. Da MULTIplicação do pão e da palavra...
No milagre da insurreição.

domingo, 15 de novembro de 2009

A vida segue


De novo esta necessidade incontida de escrever sobre jantares, olhares, relações, medos, incertezas...
De novo esta angústia e o antigo sono amigo se afastando no meio da noite, dando adeus e me deixando sozinha de olhos abertos na escuridão.
Parece que a vida é isso mesmo, este eterno festival de incertezas, desencontros, solidões...
Gostei muitíssimo de ver aquele sorriso na foto - alguém tem que estar bem nesta história toda e eu juro que prefiro que seja você.
Eu sabia que comigo seria diferente, que estes finais de semana chegariam carregando oito toneladas de preocupação e todo tipo de pensamentos inadequados para quem precisa viver dia após dia com tantas lembranças e ainda seguir em frente.
O lago está marrom, mas ainda assim ele é bonito e me faz lembrar de você, do seu sorriso, da sua voz, da sua vida que me deixa sem sono aqui deste lado do mundo.
Tão longe eu estou de mim...
E esta chuva calma, estes trovões que percorrem as distâncias, o crepúsculo do dia impregnado de saudade e de medo do que pode se romper, do que pode renascer, do que pode se perder para sempre.
Mais um dia que morre longe...
Mais uma esperança que desaparece com a luz...
Mais uma lágrima que escorre furtiva enquanto tento me convencer de que está tudo bem mesmo que você não atenda o telefone.
Sua garganta está melhor, você não está bebendo demais, a solidão não te angustia, as músicas são boas, o tempo é de descobertas, a vida segue...
O lago está da cor da terra em contraste com o verde escuro do jardim nesta hora do dia...
A família se reúne e fala sobre nossos erros, dão suas opiniões isentas de culpa ou responsabilidade, tiram conclusões de quem somos a partir desta última semana de revoluções inglórias...
Nem nós sabemos.
Ninguém sabe.
Só dá pra saber o que se passa aqui dentro e sobre isso não dá pra concluir nada.
Aceito suas decisões com a passividade que não tenho, mas invento pra você...
Invento tudo pra nós dois enquanto o dia morre longe...
Enquanto a vida segue tão longe de mim.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Esquecimento


Estou ouvindo uma música qualquer quando ele aparece.
Distraída. E, de repente, percebo aquele bichinho no canto do armário. Saldo-o.
Responde-me com um sorriso tímido...
Tenho a sensação de que já o conheço.
- Quem é você? – pergunto despretensiosamente.
- Sou um pobre animal abandonado. Quer me acolher?
- De onde você veio?
- Não me lembro.
- Tenho a sensação de que já o conheço.
- Nunca estive aqui.
- Mostre-me os dentes. – peço desconfiada.
- Não posso.
- Por quê?
- Porque dói.
Olho-o por alguns segundos. Ele fica incomodado, mas me encara também.
Tem um ar falso de inocência.
Não é pavoroso, mas também não tem aparência afável.
Não é bonito nem feio.
Às vezes parece carente e esfaimado.
Outrora se comporta com uma insolência assustadora.
Continuo desconfiada. Tenho uma sensação estranha de que aquele bichinho não é boa companhia...
E ele vai ficando. Pede-me que o alimente...
Está realmente faminto.
Segue-me em todo canto. Vela meu sono, mexe nos meus sonhos, altera meu apetite, conversa com meu estômago, fecha meus olhos, muda os móveis de lugar, esconde meus óculos, acaba com meu cigarro, sacode meu humor, mata meus conceitos, ri das minhas lágrimas, vasculha minhas gavetas, compõe sambas, me chama de querida...
Agora ele faz tudo que quer. Parece dono desta casa e da minha vida.
E eu já o conhecia só que não me lembro de onde.
Mas, se ele me mostrar os dentes eu tenho certeza que consigo lembrar.

Ilustração de Chiara Bautista

domingo, 4 de outubro de 2009

Equipe Multi


É que lá não tem água potável e o banheiro é um negócio complicado. Disputadíssimo. E serve até de estacionamento pra uma monareta de mil anos. Isso que dá trabalhar na saúde pública. É cada coisa que a gente vê. E ainda por cima em equipe multi. Multi. Multi... tudo isso e nada ao mesmo tempo. Preciso pensar em um tema pra TCC e comprar algumas coisas pra viagem. Viajar. Viajar. Viajar. Tá bom, eu vou fazer academia de manhã pra não precisar deixar de ir a Keiko no fim da tarde. Porra. Eu tenho o direito de beber todos os dias porque trabalho na saúde pública e moro no fundo de uma caverna no meio do circo dos horrores e sei que os ratos estão pelos corredores. Você também iria beber todas as tardes conversando com hippies baianos, capoeiristas, cães da rua, amigas desaforentas e toda a legião de seres fantásticos que habita aquele bar deliciosamente sórdido onde os fregueses podem ser açoitados por mijar na calçada. Um dia alguém ainda vai fumar aquele japonês e eu quero muito estar presente. Pobrezinha. Além de assistente social foi trabalhar na saúde pública. E ainda por cima em equipe multi. Multi. Multi... quinze mil oitocentos e quarenta e sete maluquices por dia. Taras, cleptomania, psicopatia, narcolepsia, sexo grupal, blastos revoltados, terreiros de umbanda, laqueaduras, fígados rejeitados, uniões instáveis, orgias gregas, hipocondria e gripe H1N1. Tudo que a gente leva pra dentro da Keiko no fim da tarde e enfia goela abaixo com um gole da skol mais gelada do mundo entre um pacote e outro de torcida. Não tem estômago que aguente. Nem blastos. É muita coisa pra um portfólio. É muita coisa pra quem precisa dormir pelo menos dez horas por dia... Não tem meditação que dê jeito. Nem ioga, nem box nem porra nenhuma de exercício físico nem acupuntura nem viagem nem bolsa nem nada. O jeito é ir levando entre uma biópsia de medula e um porre. Entre uma laqueadura e uma coxinha de frango. Entre a vacina e a G.O. O jeito é ir pra academia de manhã ouvindo qualquer coisa que me faça acreditar. O jeito é viajar de avião porque de ônibus leva umas quatorze horas. E olha que sessenta das minhas horas semanais pertencem única e exclusivamente à RMSF. E eu fiz isso voluntariamente, ninguém me obrigou a nada. Dois e trezentos é pouco, né não, Regi? Haja blastos e estômago e hippie neste mundo. Cazuza nem existe mais, aceite. Agora ele toca gaita e faz fisioterapia e natação e nada de Keiko. Pois é... Perdemos essa. Cazuza morreu. Mas, nem tudo tá perdido: a Jú tá indo pra lá com mais frequencia no auge dos seus setenta e oito anos. Isso sim é que é exemplo de vida. Nem que for pra chorar dor de amor e as neoplasias da vida... o bar a gente não abandona. Senão, o que resta? Comer coxinha e beber tubaína de limão na padaria que agora nem toldo tem... o vento levou. Daqui uns dias o terremoto vem também e não sobra nem a lembrança de Ibiporã. Aquela porra me lembra Macondo. E a gente pensando que era a Jamanta, hein Equipe? Lá a destruição é em massa mesmo. Vem tufão e fode com a cidade inteira. E gripe. E a equipe permanece. A equipe tem o perfil de Ibiporã. Pede uma pizza com borda recheada e todo mundo se diverte com treze quilos de catupirí por pouco não vomitados por conta dos testículos de um ser grande que fala até pelos cotovelos. E rouba o MEU pedaço de tomate seco. Pelo menos todo mundo ainda tem mamilos, né não Bruna? Tenho um medo da porra. A coisa toda é o perfil deste bando de lunáticos? Será que alguém explica? Diz aí, Regina Gil. Pelo menos não tem mais primeira-dama do narcotráfico local. Aquilo já tava perdendo a graça e só quem vive com a cabeça lá em Campo Mourão é que demorou um pouco mais pra perceber isso. Nem o Angeli conseguiria criar um enredo tão pitoresco. É a porra do perfil, né não Equipe? Todo mundo militante do SUS apesar de Jamanta, Tufão, Terremoto, Blastos, Exú da Bicicletinha e o diabo... Sempre uma aventura!
A gente se vê amanhã... lá em Ibiporã.
Segunda-feira é dia de Keiko, né não?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Mundo


Havia um Sujeito Levemente Esverdeado na esquina, uma Senhora Muito Magra olhando para as mãos no ponto do ônibus e uma Garota com uma grande mochila roxa encostada no muro com uma pequena Salamandra no ombro. As Formigas passeavam tranquilamente pelo meio fio e o Vento soprava calmo, indiferente, impertinente tentando irritar a Salamandra.
Havia um muro azul com frases bíblicas e uma Freira que andava apressada em frente a um ferro velho com seu hábito pesado escorrendo asco e virtude, roçando o chão poeirento e as Formigas despreocupadas.
A Salamandra olhou demoradamente para a Freira com expressão de divertimento. O Sujeito Levemente Esverdeado acendeu um cigarro e ofereceu à Salamandra.
Havia um Sujeito Levemente Esverdeado e uma Salamandra fumando na esquina enquanto a Senhora Muito Magra que olhava para as mãos rezava baixinho para que os Anjos parassem de beber e fazer barulho nas escadas à noite.
O Sol fazia buracos na superfície do dia e a Garota repreendeu a Salamandra por fumar.
O Tempo tocava piano para acalmar o Sol, os Pássaros voavam fatigados e as Flores sofriam de um leve transtorno mental característico das tardes quentes demais.
Os Carros corriam, as Mulheres choravam, os Homens vagavam e as Crianças fingiam que não sabiam de nada voltando escandalosamente das escolas enfadonhas com seus uniformes suados e suas mochilas grandes demais e seus cabelos despenteados.
Um Hippie pediu um cigarro à Salamandra que ficou desconcertada e olhou para o Sujeito Levemente Esverdeado que deu um cigarro ao Hippie e depois comprou uma pulseira de mandalas em couro.
As Formigas continuavam sua marcha descontraída e a Senhora que olhava as mãos levantou a cabeça e pediu ao Hippie um cigarro.
Ele disse que só tinha maconha.
A Freira parou no ponto do ônibus e olhou com dureza para a Salamandra, para o Hippie e para o Sujeito Levemente Esverdeado.
No jardim de uma mansão do outro lado da rua uma Mulher Lânguida chorava e dizia: “Oh, meu umbigo, meu umbigo...” enquanto seus Filhos cresciam alheios às lágrimas e ao umbigo da mãe ouvindo as histórias das Formigas que moravam no jardim e queriam fazer uma parceria com os Tatus para criar um partido anarquista ultra radical. Os Tatus ficaram preocupados e disseram as Crianças que as Formigas estavam em crise existencial.
A Salamandra saltou do ombro da Garota e foi pedir maconha ao Hippie, que sorriu para a Freira e saldou as Formigas Anarquistas.
Resolvi ir embora e, de longe, eu ainda ouvia a Mulher Lânguida chorar e repetir: “Oh, meu umbigo, meu umbigo, meu umbigo...”