sábado, 6 de dezembro de 2008

Ocultos...


Vamos falar sobre o homem que criou esta bela jovem pálida e seus tentáculos, que acompanha o título deste espaço: Ray Caesar. Esta e várias outras obras são impressionantes pela beleza e harmonia de cores. Algumas são levemente “indigestas”, outras instigantes... Uma miscelânea de sexualidade e inocência, beleza e horror...
Nascido em Londres em 1958, o artista começou exibir suas obras aos 45 anos de idade, carregadas das experiências profissionais que adquiriu ao longo de sua trajetória como fotógrafo na ala infantil de um hospital.
Ao ver suas telas numa revista de arte de um amigo, pensei imediatamente em pedofilia. Quase todas as imagens são de crianças, algumas em posições extremamente eróticas, decotes e expressões sensuais. Mas, um olhar mais atento, um vasculhar mais “artístico”, um sentir mais humano... e pude perceber algo muito mais relevante nestas imagens. Muitas dessas crianças têm partes do corpo que não são humanas: garras, tentáculos, patas, fluídos, marcas... algo que tentam esconder nas cores e luzes do ambiente.
Lembrei-me do Cortazar, com seu personagem que vomitava coelhinhos e sua tentativa desesperada de escondê-los do mundo...
Quantos de nós escondemos tentáculos ou coelhinhos diariamente?
Somos convencionais e afáveis aos olhos da sociedade dia após dia... no trabalho, nas reuniões de família, no jantar com os pais do namorado, nas festas... Mas, todos temos nossos coelhinhos para vomitar em silêncio... Temos nossos tentáculos escondidos na balbúrdia de cores e sons e obrigações da vida.
Quem disse que os tentáculos são tão ofensivos?
Por que vomitar coelhinhos nos parece tão desagradável?
Quem foi o primeiro a se assustar com as garras de alguém, a ponto de proibi-las de serem expostas?
Quando foi que a hipocrisia nasceu?
Quem instituiu o feio e o perigoso?
Ray Caesar e Cortazar haveriam de responder estas inocentes perguntas...
Todos nós, de alguma forma, sabemos as respostas...
Pois todos conhecemos o roçar dos pêlos macios na garganta...
Todos sabemos o trabalho que dá esconder tentáculos...

Ótima semana a todos...
Até.

3 comentários:

Inugami disse...

Poucos tem a coragem de mostrar o quão belo pode ser o tom das asas que escondemos. Isso é a identidade.

PS: Eu gosto de coelhinhos...

Abração (Sim... Estou online uma hora dessas do sábado. Sóbrio, pra constar.)

Máximo Heleno Lustosa da Costa disse...

Ana, retribuo a visita.

Este quadro me assusta mais porque há algo de boneca de plástico, é algo estranho. Não lembra carne, não lembra o humano (com garras e coelhinhos, claro)...

Não creio que Cortázar explicasse algo... ou mesmo, tentasse... rs - esta coisa de explicar é ofício das pessoas normais. O grande artista deve criar buracos.

Se analisar com mais carinho, perceberá que a hipocrisia torna a vida suportável.

Interessante a sua análise da obra, minha cara.

AugustoMaio disse...

Curioso, interessante. Lindo.