quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Diário de campo.


Você já fez alguma coisa totalmente ridícula sem estar bêbado?
Ela já. Várias vezes.
Uma delas – acho que a pior de todas – ensaiou por muito tempo antes de tomar coragem para fazer.
Foi tempo suficiente para perceber que aquilo era um disparate.
Mas não. Quando tem que ser ridícula ela obedece cegamente todas as ordens e regras da insensatez e faz tudo dentro do maior rigor. E sempre tem um bom motivo pra isso.
Quando alguém relembra o acontecido ela faz questão de levantar o dedo indicador e dizer de forma acusadora que foi amplamente incentivada por “amigos” que adoraram a idéia de um outro “amigo” que acabou dando no que deu. Agradece sarcasticamente a corja de amigos no final das contas e ri gostoso...
Vou contar essa bela historinha que deveria levar o título: “O elogio da insensatez”.

Ela fazia estágio duas vezes por semana numa instituição filantrópica em uma cidade vizinha. (Parece que eu aprendi a escrever "vizinha")
Odiava aquele estágio.
Por vezes ia chorando dentro do ônibus. Chorava de sono e de raiva.
Estava passando por dias realmente ruins. Ainda não estava tomando os tais homeopáticos quando tudo começou.
A instituição do estágio, a supervisora e o estágio em si, provavelmente eram ótimas. Ela é que estava inventando um monte de cruzes para carregar. E aquela falta de ar... era sempre assim quando estava nervosa.
Um dia olhou pela janela num ponto em que muitos desciam para uma conexão e viu um sujeito parado.
Gostou dos olhos dele. Eram levemente caídos nos cantos externos e davam-lhe uma expressão de quem não estava nem aí para o que se passava ao seu redor.
O ônibus tocou e ela voltou a pensar que em breve estaria dentro daquela instituição sem ter a menor noção do que deveria fazer. E a falta de ar que lhe provocava aquelas dores horríveis no peito...
Passados dois dias voltou a pegar o ônibus e viu que o sujeito estava lá dentro! Ele pegava o mesmo ônibus, mas descia antes dela, para fazer a conexão.
Sempre sério. Às vezes com fones no ouvido, às vezes lendo alguma coisa... Nunca olhando para os lados. Nunca olhando para as pessoas. Muito menos para a nossa adorável estagiária.
Um dia ele desceu e ela se distraiu a olhá-lo. Penso que ele percebeu, pois a olhou de fora com expressão um pouco desconfortável.
Ela mais do que depressa desviou o olhar e procurou ser mais discreta.
Preciso deixar bem claro que aquilo nem de longe era uma paquera. Tanto que a principal preocupação dela era que ele nunca percebesse seus olhares.
Estava apenas gostando de passar aqueles minutos outrora terríveis a imaginar o que ele estaria lendo, o que ouvia e no que pensava quando olhava demoradamente pela janela fitando a estrada...
Era um homem alto e bem vestido. Sempre de movimentos polidos. Aparentemente formal.
Não era o tipo de homem que ela gostava.
Mas quando ele estava com a barba por fazer ela se demorava mais ao olhá-lo. Gostava da barba.
E assim ela foi desde abril até meados de novembro.
Todas as manhãs olhando-o...
E sempre cuidando para que ele não percebesse.
Pode ser que não tenha notado nada mesmo.
Mas, próximo ao fim de novembro (e nesta altura ela já estava obtendo grandes avanços com a homeopatia) se deu conta de que o ano estava acabando. O estágio estava acabando. As viagens pela manhã estavam acabando...
Ela não voltaria a ver aquele sujeito alto e formal e sério que sempre ouvia músicas que ela não sabia quais eram e lia coisas que ela não sabia se comoviam alguém e parava no ponto com a altivez de quem não fazia parte daquelas manhãs enfadonhas e olhava para frente como se nada daquilo existisse de verdade e tinha os cantos externos dos olhos caídos numa expressão de desdém...
Livre das faltas de ar e sentindo-se milagrosamente bem, não gostou da idéia de ter passado quase oito meses observando uma criatura e depois nunca mais vê-la.
Comentou com sua corja de amigos.
Foi um pandemônio. É claro que seus argumentos de que não era interesse não convenceram as “amigas” loucas e adoravelmente inconseqüentes que ficaram eufóricas com a história.
Comentou então com um amigo que parecia ser um pouco mais sensato, pois talvez ele entendesse seus argumentos.
O amigo fingiu que entendeu do mesmo jeito que sempre havia fingido ser um pouco mais sensato.
Pensaram juntos no que ela deveria fazer.
O problema é que a nossa adorável estagiária, além de ser uma aprendiza em muito mais do que na profissão, é tímida.
Muito tímida.
Bom dia? Nem pensar.
Sentar-se ao lado dele? Nem sob tortura física, moral e psicológica.
Fingir uma convulsão e se jogar em espasmos sobre seu colo? Hum... não não. Melhor não.
Assim fica difícil...
Passaram mais de uma noite pensando...
O tempo estava passando e, em breve, ela não o veria mais.
Até que o amigo que fingia ser sensato e fingiu entender a inocência dos motivos da menina, teve uma brilhante idéia!!
Até hoje me pergunto chocada como foi que ele conseguiu convencê-la a fazer aquilo.
Até hoje me pego pensando em quais foram os artifícios de manipulação e persuasão que aquele sujeito usou para fazê-la acreditar que aquilo não era um disparate.
A idéia brilhante: Antes do Amanhecer.
O filme, aquele dos dois jovenzinhos românticos que viajam de trem e se apaixonam e têm até o amanhecer do dia para ficarem juntos.
Superficialmente é só isso. Mas, a querida estagiária e eu sempre acreditamos que o tal filme é sobre algo muito mais encantador: as pessoas.
A idéia constituía-se em entregar o filme para o sujeito...
Assim, sem bom dia nem sentar-se ao lado dele nem convulsão.
O amigo fez a cópia do filme. O resto era com ela.
Apesar de aprendiza e tímida, ela é um pouco criativa.
Eis o grande conflito:
Entrava no ônibus pela manhã, olhava-o com o filme nas mãos. O ano e o estagio e as viagens próximos do fim...
Quanta tensão. Este é o clímax da historinha que já está ficando longa demais.
E no último dia de estágio ela rabiscou seu e-mail na contra capa e foi para sua última viagem decidida a falar com o tal sujeito sério.
Sabe-se lá Deus o que havia acontecido naquele dia, mas o fato é que não havia ninguém sentado ao lado dele, nem na frente dele, nem atrás dele...
Ela se encolheu num banco à frente. Abriu um livro. Fingiu ler, mas era incapaz. Naquele momento ela era absolutamente analfabeta.
Seu coração já havia percorrido todo seu esôfago e estava chegando feliz da vida na garganta...
Antes que o sujeito descesse do ônibus e seu coração se atirasse de sua boca, se virou e tentou um sorriso. Foi péssimo.
Falou meia-dúzia de palavras que nem eu que estava ali de forma sobrenatural e sei de todos os detalhes porque sou onipresente consegui ouvir.
Ele agradeceu pelo filme (ela não gostou da voz dele e seu sorriso pareceu corromper os traços que ela mais gostava do seu rosto porque nunca havia imaginado como seria seu rosto quando sorria). Despediu-se, desceu do ônibus e ela ficou ali... Naufragou.
Não sabe se de alegria ou de embaraço.
Penso que foi alegria, mas meus poderes sobrenaturais já não conseguiam acompanhar as sensações da querida estagiária por isso não ouso afirmar nada.
No que deu tudo isso?
Em nada.
Ah... sei que é frustrante. Mas ela é só uma aprendiza.
Chegaram a trocar alguns e-mails a partir de janeiro.
Qual não foi sua surpresa quando, no segundo dia do ano ela abriu sua caixa de mensagens e leu o e-mail educado e exageradamente formal de um sujeito de nome insólito que dizia ser o cara do ônibus.
Riu-se muito, pois havia imaginado todos os nomes do mundo para o sujeito sério, menos aquele composto arrebatador. Que lindo é seu nome... Gostaria de poder contar, mas seria expor o rapaz e meu código de ética não permite isso.
E até hoje nós não sabemos como ele se sentiu ao receber aquele filme ótimo de uma desconhecida dentro de um ônibus antes de saber que se tratava de uma humilde aprendiza da vida (mais tarde, através da meia dúzia de e-mails ele pôde notar).
Sei que eu poderia descobrir o que se passou pela cabeça do rapaz com meus poderes extraordinários, mas meu código de ética não permite que eu faça isso também.
Nem sabemos ou não nos lembramos se ele disse em algum e-mail o que achou do filme...
E os dois nunca mais se viram.
Ela sempre se lembra dele quando entra num ônibus, e às vezes até olha a sua volta esperando vê-lo com suas leituras ou fones de ouvido... Se o visse iria sorrir de verdade dessa vez, pois ficaria verdadeiramente feliz por encontrá-lo.
Deve ser uma pessoa interessante... Apesar de exageradamente formal.
Ela se envergonha do que fez e xingou durante muito tempo o tal amigo.
Mas, jamais se arrependeu a nossa querida estagiária. Afinal, estagiários existem para aprender...
Aprendeu a delícia que é sentir seu coração percorrendo todo seu esôfago. E o desespero de ter que agir antes que ele alcance a garganta e salte feliz da vida pela boca.


PS: A foto é uma cena do filme Antes do Amanhecer, que eu adoro e recomendo.

2 comentários:

Toni Rabelo disse...

Que texto adorável! (Tenho medo de soar formal demais usando o adjetivo "adorável", não quero parecer o cara do ônibus...)

Também perdi um bom tempo aqui, lendo e relendo o que mais me tocava (tenho essa mania esquisita, releio várias vezes uma mesma coisa, vai entender.

Tenho uma história parecida com essa lá no meu blog, chama-se "No ônibus", está em fevereiro/08. O final é diferente, confesso e adianto. E a minha história parece também mais inverídica que a sua... Mas é curioso como as impressões são as mesmas!

Volte sempre, eu prometo o mesmo.

Abraço grande,
Toni.

Poeta Mauro Rocha disse...

Também recomendo o filme e mais seus textos são ótimos.