domingo, 8 de fevereiro de 2009

É assim:


Você chega cansado, mal humorado, sozinho e seu cabelo já não corresponde as suas expectativas.
Encontra algumas pessoas que te orientam sobre o que deve fazer e onde deve ir.
Fotógrafo. “Vamos fazer uma foto sua assinando”. Mas eu nem estou de beca. Tudo bem...
Em poucos minutos está dentro da beca e pergunta para vinte e oito pessoas de que lado deve ficar aquela faixa horrível da cintura. Quatorze diz que é do esquerdo e a outra metade diz que é do lado direito. Você deixa do jeito que está e finge que a faixa nem existe.
Entra naquele ginásio de esportes descomunal e segue as outras pessoas da sua turma até o lugar designado a você.
Sente-se mal por ver que todas as outras formandas estão com um belo salto até que a quinta delas olha pra você e diz com expressão de cansaço o quanto se arrependeu por não ter colocado um sapato igual ao seu.
Pode sentar ou é pra ficar em pé?
Fotógrafos. “Olha aqui pra gente fazer uma foto sua de capelo”. O que?
Todo mundo sentado. Alguém se pronuncia. Você não consegue prestar atenção nas palavras. Está procurando sua família na arquibancada. Olha para todos os lados. Não vê ninguém.
Que calor.
A orquestra toca algo. Todos ficam em pé. Acabou. Todos se sentam.
Você olha para os lados.
Alguém está falando de novo.
Lá vem o fotógrafo. Foto com o canudo. Com a sua colega. Com o capelo de novo. “Mas o capelo não pára na minha cabeça!” Deixa pra lá...
Cadê essa gente?
Isso não é uma beca, é uma mortalha.
Que sede.
Quem está falando? Sei lá.
E a orquestra de novo. Todos se levantam.
Acabou. Podem se sentar.
Suando em bicas... Pelo menos o capelo existe: para você se abanar.
Dá outra olhada. Sua família te enganou. Não vieram...
Tudo bem. Você disse que deveriam vir só se quisessem. Não quiseram.
Estão vaiando. Vaiando quem? O reitor.
E ele fala. Fala. Fala...
Juramento. Jura que vai mandar esse fotógrafo tomar naquele lugar se ele olhar pra você de novo.
“Levanta o braço, moça. Vamos fazer uma do juramento”.
Olha-o como quem vai mandá-lo tomar naquele lugar e ele te olha insolente, esperando sua pose.
Está bem. Foto do juramento.
Seu celular toca. É o número da sua mãe, mas é a irmã quem fala. Pergunta onde estão. “Atrás de você, sua burra. Olha pra cá”.
Lá estão eles. Exaustos de tanto acenar. E você sempre os procurando no lado oposto.
Sente-se feliz. E um pouco idiota também.
“A gente já colou?” “O quê?”
É a colega do lado... Quer saber se já aconteceu a parte da cerimônia que os faz efetivamente “colados”. Sei lá. Explica que estava à procura dos seus familiares.
Em pé de novo. Mandam que acenem para os familiares. Agradeçam os pais. Eles acenam de volta. Estão felizes.
Sua mãe está com um belo vestido e seu pai está profundamente mal humorado.
O calor vai te matar e sua maquiagem já te abandonou há muito tempo.
Estão vaiando novamente. Quem dessa vez? Parece que é um deputado. Ele você também vaia.
Falta pouco, agora é só o prefeito falar.
A orquestra de novo.
Mais oito mil fotos com este fotógrafo desgraçado.
Sua querida professora te entrega o certificado.
Você abraça todos os amigos.
Esperou quatro anos por este momento e agora está encolhido no fundo dessa beca maltratando os fotógrafos e acenando para sua família.
Acabou. Lá vêm eles.
Abraços e mais fotos.
Seu pai está realmente impaciente.
Eles vêm com flores...
Flores. E são pra você.
Você agradece. Sorri.
Acabou.
Vão embora.
Finalmente você vai tomar sua merecida cerveja e falar sobre a emoção deste momento.
Finalmente não há mais nada entre você e esta profissão.
É um nascimento. Você ficou tão sufocado de calor dentro daquela roupa e tão ansioso procurando sua família, que não se deu conta de que nasceu como profissional.
Percebe isso no bar. Tomando sua merecida cerveja e conversando com pessoas que você nunca havia visto até aquele dia.
Mas tudo bem. Você também não existia até aquele dia.
Não existia como profissional que agora você tem a obrigação de se tornar.
O emprego?
Ah... Isso é outra história. Afinal, você acaba de nascer. Agora, vai começar a engatinhar.

4 comentários:

ika disse...

nossa to pagando um pau p vc escrevendo em!!
o fotografo era pegavel..coitado!! heheheh
é nascemos.. e temos a esperança de andar logo!!
beijokas querida!!

Poeta Mauro Rocha disse...

Muito bom, e realmente começamos a viver agora.
E nesse começo desejo sorte e sucesso.

Bjs.

Toni Rabelo disse...

Sei bem como é isso...
E olha que nem participei da colação de grau, pelo menos não dessa cheia de rituais esquisitos! rs

Mas no dia em que peguei o diploma e mostrei pro meu pai, aí pronto! Nasci!

Agora é se preparar, porque engatinhar não é fácil não! Mas aprende-se, com certeza aprende-se.

Beijo grande!

(Te "favoritei", ok?)

Inugami disse...

Hahahaha, porque não me surpreendi lendo esse texto?

Adorei Ana!

E como eu disse uma vez dentro da van:
-VOCÊ CONSEGUE!!! lol

Abração