quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Ofício nº 260486

Hawik, 19 de fevereiro de 2009.

Ao Senhor Menino da Estrela.

Venho por meio deste, informar a Vossa Senhoria que, a partir desta data, fica oficializado e publicado neste espaço para que haja testemunhas, que cansei dessa merda.
Estou cansada de ser a Julieta, Isolda, Sierva Maria ou qualquer outra pobre infeliz da literatura.
Vossa Senhoria sabe perfeitamente que minha insolência não me permite representar esses papéis de mocinhas sofredoras e ainda tem a pachorra de ficar aí com esse seu arremedo de amor que não leva a lugar nenhum.
Está esperando o que? Que Deus ou o Diabo resolva todos os vossos problemas?
E ainda fala comigo como se fosse a maior vítima dessa maldita história só porque está mortificado de vergonha por ter batido no peito se dizendo um exemplo de coragem e força.
Bem feito para Vossa Senhoria.
Quer que eu sinta pena?
Pena tenho é de mim, que estou chorando e tropeçando nos meus próprios sentimentos de tanta saudade que sinto.
Vossa Senhoria é demasiado contraditório: Primeiro, me dizia com belas palavras que vosso amor fortalecia-o diante das adversidades que deveria enfrentar. Depois, derrotado, defendia um amor diferente, que deve bastar-se e “contemplar a si mesmo”.
Vossa Senhoria faz do amor o que lhe convém?
Pensa que o fato de me amar justifica ter-me deixado no limbo da dúvida por tanto tempo, sem que pudesse saber o que havia acontecido?
Pensa que vosso amor lhe isenta da culpa de ter-me feito implorar para que me contasse o maravilhoso final que destes a este “conto” miserável?
Sinceramente, senhor Menino da Estrela. Estou farta.
Espero que Vossa Senhoria tome providências imediatas (voltar pra mim o mais rápido possível sugere providência extremamente satisfatória), pois caso contrário, jurarei solenemente que as únicas palavras que voltará a ouvir de mim serão acusações tão agressivas quanto estas que acabo de fazer.
Jurarei nunca mais representar esse papel medíocre de donzela que cultiva e sustenta o amor de seu príncipe acima de qualquer provação. Afinal, nos belos contos o príncipe também faz sua parte.
Cansei-me dessa merda, senhor Menino da Estrela.
E, se Vossa Senhoria ainda não entendeu, finalizo enfatizando que isso é uma ameaça pública e formal. Para que, depois, Vossa Senhoria não possa dizer que não estava ciente de minhas resoluções.
Certa de contar com a vossa colaboração.
Sem mais no momento, desde já agradeço a atenção dispensada.

Cordialmente,

A Doninha de Ninguém.

7 comentários:

Daiane disse...

Para a ilustre escritora do blog.
Primeiramente, admiro a criatividade do texto, e imagino que deve haver aí muito mais que fantasia. Depois me utilizo das palavras de (Pessoa) para expressar minha opinião sobre a história de amor, no caso, o amor próprio da protagonista da história.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Delirium disse...

Gostei do blog
~>sem muitas palavras a serem ditas por hora, mas fica o elogio =)

Inugami disse...

Tarefa ingrata essa de amar, né?

Coincidentemente eu to postando nesse momento um texto que metaforicamente me define nos ultimos 9 meses nesa tarefa ingrata.
Espero que vc se identifique :)

Abração

PS: Elogios, elogios e mais elogios pros seus textos. Quisera eu ter essa inspiração.

Poeta Mauro Rocha disse...

Parabéns pelo texto e pela imaginação.

um ótimo carnaval

Toni Rabelo disse...

Interessantíssima essa postagem, mesmo.
Eu adoro esse jogo de brincar de ser formal e impessoal quando na verdade você está escrevendo sobre seus sentimentos...
Tenho um texto que segue essa mesma linha, mas o meu está inacabado.
Talvez inacabado pra sempre, minha 'Vossa Senhoria' perdeu a graça, se é que me entende, e matou a poesia!

Quanto a minha versatilidade, pois é, nem eu mesmo entendo! rs
Tem dias em que acordo poeta (que pretensão!), em outros acordo palhaço, outros irônico, e muitas vezez acordo sem vontade de ser aboslutamente nada.
Mas escrevo, sempre.
Não sei se pra você é assim, mas quando escrevo acabo entendendo melhor a mim mesmo. E mais, fica ali documentado, volto e releio, me reconheço, me desconheço, aprendo mais, envergonho também. Eu sou o leitor mais assíduo do meu blog!rs

Gosto muito do seu espaço.Ele é sincero, sensível e absurdamente real.
Volto sempre, todo dia, prometo.

Abraço grande,
Toni.

Delirium disse...

à vontade para me (in)dicar =)
só vou avisando que não atualizo lá com muita frequencia... mas gosto que me leiam, de vez em quando. e também sou capaz de abandonar-te, mas não se ofenda, às vezes faço isso com os blogs que acompanho e nem sei o porquê [juro]. mas gostei daqui. por enquanto sou seguidora, ok?
abraço e see ya

Quixote disse...

Paula,
Parece ser mesmo o caso de comprar um "terno-e-gravata"...
Tem situação OFICIAl em breve...agrade[ou des] a gregos e troianos, teremos,isso é a verdade...facto!
A Sorte, ou o "bom", ou "ainda bem que" o Amor está acima do oficial e do marginal...
Só espero que entremos, no dia do juízo, "de mãos dadas"...
Quixote.