quinta-feira, 5 de março de 2009

(Pre)texto


Eis o meu aparato técnico: uma garrafa de vinho, um maço de cigarros e a lembrança fiel da cena desta tarde.
Absolutamente sozinha e disposta à só abandonar os cigarros e a garrafa depois que tudo estiver definitivamente claro pra mim.
O que aconteceu, como aconteceu e por que aconteceu.
Até parece pretexto pra me embriagar sozinha!
Mas, é uma meta. Um objetivo coerente e de fácil acesso.
É só eu ficar aqui o tempo necessário e pensar bastante. Ver e rever aquela cena quantas vezes for preciso e chegar a uma conclusão.
Vamos lá:
Você bateu a porta com força como sempre, mas dessa vez eu me assustei. Há tempos você não aparecia...
Pensei que meu coração estivesse acelerado por causa da sua presença, mas logo constatei que era por conta do susto.
Fui muito educada e gentil, igualzinho quando aquele técnico da vigilância sanitária aparece para pegar uns relatórios.
Aquele silêncio foi constrangedor, eu sei... Mas, é que eu estava tentando me lembrar de todas as palavras que eu queria tanto te falar, esperei tanto pra gritar, ensaiei tanto pra te dar...
Não consegui me lembrar! Que coisa estranha...
O jeito foi conversar sobre tudo e sobre nada...
O que era aquilo acariciando meus cabelos sarcasticamente?
Era a nossa apatia...
E a poesia, onde estava?
Morta.
Morta?
Não! Não pode ser... Quem a matou?
Você ou eu?
Isso não importa.
Está morta a pobrezinha e a culpa é nossa.
Já era hora dela morrer.
Foi por isso que eu me assustei quando você chegou batendo a porta. Foi por isso que eu nem me lembrei das palavras que passei um mês escolhendo pra você.
Foi por isso que eu quase te entreguei os relatórios e desejei um bom final de semana quando você ia saindo.
E eu não me senti feliz nem triste por vê-lo...
Não senti raiva de você, nem pena, nem carinho...
Meu coração simplesmente se recusou a participar daquela cena.
E eu não senti nada.
É isso! A poesia está morta.
Essa é a conclusão de tudo...
Será que agora eu devo chorar e guardar luto?
Não sinto vontade...
Devo respirar aliviada?
Ligar para todos os meus amigos e dizer que estou curada?
Também não é assim que me sinto...
Não sinto nada.
E alcancei a minha meta.
Mas, este vinho está tão bom...
Acho que convém eu pensar mais um pouco na cena e fumar mais um cigarro...
Quem sabe eu ainda verei você no fundo do copo?

...

(A outra metade da garrafa e uma carteira de cigarros mais tarde):

Não tem mais vinho nem cigarros...
Sabe quem eu vejo no fundo do copo?
Ninguém.
Uma garrafa é muita coisa pra mim. Estou totalmente embriagada, mal consigo ver o copo...
Vou pra cama...
Minha cabeça está pesada e minhas pernas estão moles...
Preciso parar de beber.
Não há ninguém no fundo do copo.
A poesia está finalmente morta.
E, se você quiser aparecer vez ou outra, vê se pára de bater assim a porta...

Porque eu quase morro de susto, porra!


PS: Ilustração de Chiara Bautista.

5 comentários:

Inugami disse...

Definir em uma palavra:

GENIAL!

Se eu não conhecesse nem um pouquinho de vc, diria que vc tava bebendo pra afogar as mágoas.

Abração!

Poeta Mauro Rocha disse...

Genial mesmo, concordo plenamente com a Inugami.Tenha um ótimo fim de semana.

BJS

Poeta Mauro Rocha disse...

Ola!! Fiz uma sigela homenagens a todas as mulheres e seu dia, antecipado eu sei,srsrrsrs, mas espero que goste.

Um abraço e beijo.

Lo. disse...

Todo mundo já disse. Mas é realmente genial!
Eu tava me preparando pra falar uma coisa e o final me fez pensar em outra. :)
Gosto dessas coisas.

Toni Rabelo disse...

Bom demais esse! Um dos seus melhores, sem dúvida...

Sensacional essa coisa de você se sobressaltar mais com o barulho alto dele bantendo à porta do que com a própria presença!

Estava meio afastado da rede, mas agora voltei com tudo! É sempre um imenso prazer passar por aqui!

Beijo grande!
Toni.