sábado, 6 de junho de 2009

O pesadelo


Esta noite acordei com uma sensação estranha. Acendi a luz do quarto e notei ao me olhar no espelho que havia sangue por todo meu corpo.
Assustada, me apressei em descobrir de onde vinha todo aquele sangue. Procurei por baixo do pijama que se colava à minha pele, entre as pernas, na barriga, nas costas... Até que empurrei meus cabelos para trás e pude ver os fios que escorriam incessantemente dos meus ouvidos.
Pensei consternada que as palavras que ouço são realmente muito agressivas para provocar feridas assim.
É que às vezes eu me canso de ser tão perecível.
É que às vezes essas agressões precisam ser expelidas de alguma maneira, mas eu não imaginei que seria uma hemorragia no meio da madrugada.
Sentia o calor dos fios de sangue escorrendo pelas minhas orelhas, sentia o sabor das palavras que ouço descendo pelo meu pescoço, sentia o cansaço das vozes manchadas de sangue e abandono.
Havia muito sangue. A agressão acumulada da semana. O cansaço de todas as vozes do mundo, de todas as discussões improfícuas, de todos os telefonemas ridículos, de todas as saudades inócuas...
Até que os fios de sangue cessaram.
Entendo estes mecanismos.
Às vezes minha mente precisa criar esses pesadelos para curar as feridas da semana.
Isso é o que eu chamo de “mal necessário”.
O pesadelo acabou.
Não há mais sangue.


Tela: "O Pesadelo" (1781), de Henry Fuseli

10 comentários:

Zé, de sobrenome Forner. disse...

As pessoas querem uma estrada asfaltada, mas você só oferece naufrágios de tinta!

Que delícia te ler.
Mesmo ensanguentada!

Zé, de sobrenome Forner. disse...

Nossa, comentamos juntos um do outro!

Marcilio Medeiros disse...

Ana Paula,
retribuo a visita.
foi bom conhecer seu espaço.
obrigado.
um abraço

Monique Frebell disse...

Que loucura!
É algum tipo de autodefesa?
Eu até entendo, é mesmo necessário certos absurdos e pesadelos atormentarem pra nos despertar daquilo que chamamos de sonho quando na verdade não é.
A realidade é que nunca gostamos de ser incomodados do sono indolente...

Bjus!

Monique Frebell disse...

Ahh Ana, depois a gente vê como fica, eu sei que a vida traz surpresas...

Bjus!
=)

Quixote disse...

Ainda bem que ninguém ligou...seria uma fatalidade...mais uma ligação ridícula quebrando um ritual de "purificação" tão profícuo para as células estaminais...sempre tão indolentes...
cuida-te.
Quixote.

Toni Rabelo disse...

"É que às vezes eu me canso de ser tão perecível."

Eu também canso, eu também.
Ainda não sei sangrar assim e sarar; geralmente eu sangro, mas acabo morrendo. Triste, né? Pois é...

Tava com saudade já desse lugar aqui.

Beijo.

Dani Santos disse...

... a sensibilidade e a sutileza de palavras, sonhos e sombras. como espaços de se recompor de um mundo apenas louco, apenas dolorido. "...sentia o cansaço das vozes manchadas de sangue e abandono." há mais canto e consciência aqui do que em muitos livros inteiros. há vida nua, escancarada. como a crueza de uma flor.

Abraços pra ti, Ana. Tuas palavras me tocam. Te adoro.

Poeta Mauro Rocha disse...

"Mal necessário" existe tantos por ai!

Belo texto!!

Desejo-te um ótimo dia dos namorados

bjs

Flor disse...

"É que às vezes eu me canso de ser tão perecível"

Isso me arrepiou, e me fez pensar durante um bom tempo, sério.

Beijo grande.
(Talvez me sinta assim, muitas vezes, a diferença é que nunca sangro.)